• Darlene Ribeiro da Silva

Algumas reflexões sobre ser psicanalista


Ao longo de minha formação em Psicanálise sempre me deparei com relatos sobre “o que era ser psicanalista”. Algumas pessoas diziam: psicanalista é aquele que olha para você e interpreta tudo, ou aquele que faz cara de paisagem. Esses comentários aparecem no imaginário social, criando um estereótipo que oscila entre “aquele que sabe tudo sobre o sujeito só de olhar, que está sempre analisando”, como num passe de mágica, e “aquele que não diz nada e apenas faz uma cara enigmática”, quase como uma estátua.


Então, como trabalho a partir da Psicanálise, sempre me foi apresentada inúmeras definições do que é ser psicanalista, e isso me fez questionar: é possível dizer que há um símbolo ou um registro do que é ser analista?


Bom, primeiro podemos pensar que ser um analista está relacionado mais a uma posição em relação ao analisando, que a uma característica pessoal, de acordo com Lacan em seu texto A Direção do Tratamento e os princípios de seu poder. E isso implica que não está ligada diretamente a atitudes, a personalidade ou a imagem da pessoa do analista, e sim ao seu desejo de analisar. Ou seja, existe o ser do psicanalista, que é o corpo e o ser psicanalista, que é a função. Claro que um não existe sem o outro, mas essa diferenciação é muito importante para se pensar o trabalho do psicanalista.


No livro Trabalhando com Lacan, organizado por Alain Didier Weill e Moustapha Safouan, podemos entender um pouco sobre essa diferenciação, considerando a pessoa do Lacan e o Lacan enquanto analista. Os relatos das pessoas que estiveram com Lacan, em análise, em supervisão e nos seminários, destacam não só o estilo de trabalho de Lacan, mas, como em cada situação, em momentos distintos, surgia um Lacan diferente, questionando os estereótipos a seu respeito.


O mais interessante desse livro não é descobrir mais uma peculiaridade sobre Lacan, mas perceber que a cada relato existe um Lacan diverso, sustentando o ser analista enquanto função, trabalhando de maneira singular com cada analisando ou supervisionando.


No filme Divã, também podemos recolher pistas de como se pode pensar o ser psicanalista como função. A imagem do psicanalista é uma boa alusão sobre o nosso fazer, sobre a posição de um analista na relação com o analisando. No filme, apenas o semblante de um analista aparece, diante do relato da paciente. Mesmo quando o mesmo faz intervenções, o que aparece é a resposta da paciente e os deslocamentos em seu discurso, os questionamentos, as conclusões, as dúvidas, que vão norteando a construção da posição do analista.


O ser do psicanalista não é o protagonista da história, não é o dono do saber sobre o sujeito e não será o guru, nem mesmo interpretador de tudo. O analisando é a peça principal de uma análise, e o analista irá conduzi-la pela transferência que se estabelece a partir da escuta do sujeito do inconsciente.


A escuta deste sujeito, por meio da relação transferencial constituída, é que vai indicar ao psicanalista a direção do tratamento para cada analisando e, então, a partir dos conteúdos trazidos pelo analisando, é que poder-se-á pensar na construção da análise e de suas intervenções, sustentando assim o ser psicanalista deste caso sempre singular.


Dessa forma, o que pode ser registrado do ser psicanalista é que ele estará em constante (des)construção. Se no imaginário social podemos considerar que o ser do psicanalista possui um símbolo ou um registro genérico e fechado, na prática clínica o ser psicanalista se estrutura na relação transferencial com o analisando, de forma singular, no exercício de sua falta-a-ser, ou seja, de sua incompletude, distanciando-se do lugar daquele que detém o saber ou a verdade sobre o sujeito a priori.


A partir disso, o analista poderá sustentar o que Lacan chamou de situação analítica, caracterizada pela escuta do sujeito do inconsciente, possibilitando que a análise se institua do lado daquele que demanda as respostas – o próprio sujeito.


Darlene Ribeiro da Silva

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