• Isabela Ledo

Dos entre-ditos da clínica no hospital e do filme A Vida é Bela: uma nova articulação

“E falam as flores que tanto amas quando pisadas, falam os tocos de vela,

que comes na extrema penúria, falam a mesa, os botões,

os instrumentos do ofício e as mil coisas aparentemente fechadas,

cada troço, cada objeto do sótão, quanto mais obscuros mais falam”. (Drummond, 1945)



É em torno dos atravessamentos daquilo que Lacan nomeou como o Real – o impossível de dizer – que se desenrola a trama do filme A Vida é Bela (1997), dirigido por Roberto Benigni, na qual o personagem Guido (Roberto Benigni) e seus familiares (esposa- Dora e filho – Giosué) são sobressaltados com a crueldade do campo de concentração. Esse cenário da guerra, da iminência da morte, metaforicamente, nos ajuda a pensar sobre a experiência de ruptura aguda, também como advento do Real, vivenciada por nossos pacientes, diante do inesperado do adoecimento e da hospitalização. Quais as manobras que esses sujeitos podem adotar frente a essa vivência? Quais as respostas possíveis do analista nessas ocasiões?


O hospital, assim como o campo de concentração, parecem ser contextos “privilegiados” para o que a psicanalista Marisa Decat de Moura desenvolveu como Urgência Subjetiva. Termo trabalhado a partir de uma retomada dos três tempos lógicos da teoria lacaniana – Instante de Ver, Tempo de Compreender e Momento de Concluir – indicativos de uma lógica de como o sujeito se constitui e se organiza nas suas relações com o Outro, com a realidade. No horror da guerra, do hospital, parece haver uma elisão do tempo de compreender. O encontro com aquilo que não se sabe da experiência coloca o sujeito diante da urgência de concluir, por meio de uma certeza antecipada: “vou morrer”. A angústia e o desamparo presentificam-se como resposta diante da vivência de constatar-se enquanto um corpo. A aposta de um analista deve passar por recolocar em cena um outro tempo, que reencontre pela palavra uma via elaborativa.


Ambientes como o hospitalar e o da guerra podem potencializar a vivência de angústia e de desamparo ao trabalhar sob uma lógica que contribui para o apagamento da singularidade através da padronização e consequente precarização da experiência. No entanto, frente a isso, cada paciente responderá com as suas idiossincrasias. Ele não deixa apartado, ao entrar no hospital, o seu modo de funcionar e de estar no mundo.


No filme, o personagem Guido, mesmo antes do campo de concentração, experienciou a exigência da padronização ao tentar exercer a função de garçom. Esse, todavia, distanciou-se do desenho geral do cargo, trazendo as marcas da sua criatividade e espontaneidade. Foi consagrado, por isso, como “o garçom mais cheio de fantasias”. Guido gerava um desconforto e um incômodo imenso ao trazer escancarado o seu estilo ímpar.


E no hospital, como é ter um paciente que se rebela a anulação reservada ao lugar daquilo que é padronizado? O paciente, ao reagir com reclamações ao procedimento, ao se contrapor a realizá-lo, ao fazer inúmeras perguntas, dentre outros, parece ferir a lógica da neutralidade, da norma e do bem-estar inerente ao discurso científico. A subjetividade, tida em alguma medida como anomalia, escancara-se como um perturbador quando um sujeito insiste em subverter as regras do jogo hospitalar com a dialética do seu desejo.


Apesar do sofrimento, o estreitamento com a precariedade da condição humana também pode acionar recriações. Guido nos ensina muito sobre isso ao reconfigurar o cenário do campo de concentração, com seu filho, em um jogo que resultaria num tanque como troféu. A vivência do personagem nos faz refletir sobre como a realidade para o ser humano só pode ser acessada por uma via interpretativa, por meio de uma representação que indica o modo singular que cada um tem para se relacionar com uma certa “crueza da realidade humana”. Ao lidar com a noção de fantasia em psicanálise, no hospital, o analista deve estar atento à função de anteparo que esta possui, a fim de que o paciente lide com a morte, com o Real do corpo.


A proposta de transformar o campo de concentração em um jogo para o filho nos faz aludir, ainda, ao pai enquanto uma função que funda uma borda simbólica ao imponderável da existência. A metáfora paterna inaugura o acesso à realidade por uma via representativa. Ao falar, extraímos um sentido, em alguma medida, sempre enigmático sobre a nossa experiência. Resta sempre algo por dizer, e é por isso mesmo que podemos modificar o que vivemos, produzir novos efeitos de sentido. Guido, diante do encontro consistente e fechado da realidade da guerra, cria um jogo simbólico com o filho. Com uma linguagem lúdica dos jogos, com regras de ganhar e perder, articula-se aí uma falta, recoloca-se o desejo: Giosué discutia, opinava, se rebelava ao banho e ia tecendo esse jogo simbólico junto ao pai. Abre-se uma indeterminação de significação naquela partida que parecia perdida de entrada.


Esse “jogo” é também importante na cena hospitalar. A aposta do analista com a sua escuta é rearticular um espaço para o enigma, uma abertura entre os ditos dos pacientes. Ditos que parecem encerrar-se como uma sentença. Numa circunstância clínica, um paciente, após dois anos de reabilitação por um grave AVC, que o colocara, a princípio, sem andar, sem falar, sem comer, recebe um diagnóstico de insuficiência cardíaca e uma indicação imediata para o transplante cardíaco. Diante disto, ele diz: “não quero mais viver”. Esta é uma “sentença” que parecia marcar um sentido fixo: o paciente estaria desistindo de viver? Ao escutar, um analista deve se afastar justamente desta resposta pela via do significado. É preciso inserir na jogada o significante, o que está além dos ditos, o que está por dizer. O que este paciente quer dizer? Pela escuta, o analista pode inserir um intervalo, rearticulando para o sujeito um “tempo de compreender”. Não se trata de comunicar uma compreensão, um entendimento, de dissuadir o paciente da morte ou de convencê-lo a viver. Trata-se convocá-lo ao trabalho, a falar, a associar, sem se ocupar, antecipadamente, com o resultado, com o sentido: como ele chegou ali, naquele “último dito”?


É neste deslizamento que se pode produzir uma outra articulação. O paciente, ao percorrer pela fala a sua história, o seu adoecimento, o processo doloroso de reabilitação e o receio de voltar a viver o mesmo com este novo diagnóstico e tratamento, traz a frase inicial do seguinte modo: “eu não quero mais viver assim”. Nesta repetição, algo de novo se articula. É neste passo de sentido do “eu não quero mais viver” ao “eu não quero mais viver assim” que o analista pontua, opera um corte. O “assim” recoloca o sentido da “sentença” para este paciente, produzindo aí uma nova marca. Não se tratava mais de desistir da vida, mas de rejeitar um viver assujeitado, prostrado, acamado. Ele passa a se indagar se o transplante não seria uma saída e não mais uma condenação.


A despeito da possibilidade de se construir um sentido, o Real se inscreve como um resto impossível de ser significado. Ao longo da vida do personagem, assim como a dos pacientes, esse resto da vivência pode retornar como um motor para produção de novos sentidos, os quais não se fixam nem trazem um absolutismo. Advertido disto, o analista, pela escuta, pode ser um operador desse movimento de esvaziamentos, suspensões e relançamentos de sentidos diante da construção narrativa do paciente numa experiência de angústia pelo adoecer.


Guido cria uma borda simbólica ao absurdo, ao sem sentido da guerra. Os pacientes, no hospital, ao falar, se equivocam e se recolocam diante do desamparo da morte. Como ilustrado nas palavras de Drummond desta epígrafe, na guerra, no hospital, um analista aposta que os sujeitos podem fazer “falar as flores pisadas, os tocos de velas, a mesa, os botões (...) e as mil coisas aparentemente fechadas”, dando alguma forma (não toda) ao inenarrável, ao impossível de dizer. No hospital, ao analista abrir espaço para a palavra, apostando na sua eficácia, é possível que se produza uma experiência por parte daquele que sofre, articulada por novos arranjos e deslizamentos de sentido na cadeia simbólica rompida pela concretude do adoecer.


por Isabela Ledo



Indicações de leitura:


Decat de Moura, M. (2000). Psicanálise e Urgência Subjetiva. In: Decat de Moura, M. (org.). Psicanálise e Hospital. Rio de Janeiro: RevinteR.


Lacan, J. (1953). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 238.


Lacan, J. (1945). Tempo Lógico e a Asserção da Certeza Antecipada - Um Novo Sofisma. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 197.

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