• Admin

A resistência do analista


Há momentos nos quais a resistência do analista se torna tão evidente que é impossível para aquele que escuta ignorá-la. Trata-se de uma experiência subjetiva que pode levar à impossibilidade de escuta, beirando à surdez objetiva, como se a única coisa praticável fosse desprezar o que o analisando está narrando. São episódios incômodos para o analista.


Esses momentos podem estar presentes em toda modalidade analítica, seja no consultório particular, na instituição ou no acompanhamento terapêutico, ou ainda, diante de quaisquer sujeitos, neurótico, psicótico ou perverso. Dentre as ocasiões, nas quais tive essa experiência clínica, destaco a escuta de adolescentes envolvidos com o crime.


Horroriza-me o fato de um adolescente estar envolvido em situações nas quais a sua vida e a de outros estão em jogo. Ainda, mais horrível é me reconhecer parte de uma estrutura sociopolítica que empurra tais adolescentes para estas situações, relegando-os à marginalidade. Uma escolha forçada surge para esses adolescentes que, ao serem escutados de perto, constatamos que foram e ainda são submetidos a toda uma série de violências e de exclusões.


A escuta psicanalítica pode suspender o filtro a partir do qual se ouve o adolescente envolvido com o crime como um menino-bandido, permitindo ao analista sustentar uma escuta sem a proteção do preconceito. Isso leva o analista ao reconhecimento do adolescente para além dos atos violentos que cometeu, oferecendo condições para que o sujeito compareça em sua divisão subjetiva e com o seu sofrimento. Concomitantemente, o analista é afetado no âmbito da relação transferencial, pela escuta das vivências de graves violências sofridas e perpetradas pelo adolescente – e é aí que a resistência do analista pode emergir.


Certa vez, um adolescente envolvido com o tráfico de drogas conta-me sobre o cumprimento de uma ordem do chefe da facção: deveria matar um desafeto. A narrativa sobre a perseguição de bicicleta pelas ruas da cidade toma ares de filme policial, salvo a impossibilidade de ser tomado por mim, e pelo narrador, como uma cena cinematográfica, o que nos permitiria estarmos protegidos da dura realidade em jogo. Cada palavra pronunciada pelo adolescente vai se decantando em mim, levando-me a um estado de perplexidade. Em choque, paralisado, olho nos olhos do meu paciente e vejo ali, explicitamente, o seu próprio desespero de ter que se lembrar e se ouvir dizer tamanha barbaridade. Ele treme, se encolhe e, percebendo meu olhar inabalável, abaixa sua cabeça, fecha-se para a troca de olhares, como se percebesse minha incapacidade de o escutar sem sofrer com ele a dor de cada frase concluída.


Em sua história, naquele instante, ele não está só. Sinto que eu estou lado a lado na cena passada, sou seu acompanhante em uma situação que não vivi, compartilhando de sua dificuldade de se recordar e narrar e, ao mesmo, sendo aquele que sustenta a escuta de um fato tão dramático, sem julga-lo. Eu peguei minha bike e corri atrás dele. Eu e meu amigo. O moleque correu. Sabia que ia morrer. A gente ia matar mesmo. Ele entrou no mato. A gente foi atrás dele. Empurramos e ele caiu no chão. Dei uma coronhada na cabeça dele. Mirei e atirei. Eu gostaria de poder me levantar e sair da sala, pedir para interromper o relato, quase não suporto saber daquilo que, minutos antes, no corredor da instituição, o adolescente disse que queria me contar.


Com os olhos marejados, afundado numa sensação desagradável, sem que nenhuma ideia surja, num estado de esvaziamento do pensamento, eu vomito sem sequer ter notícias, a priori, do que eu estava prestes a dizer: e como você se sente ao me contar isso? Sem pestanejar, ele levanta novamente a cabeça, olha-me decididamente nos olhos e vocifera: É horrível! É horrível! Eu quis matar alguém, quase matei. Graças a coronhada, por algum inexplicável motivo, a arma se quebrou, perdera a sua capacidade de matar. Foi Deus!, ele conclui.


A experiência subjetiva referente à resistência do analista não surge apenas em situações clínicas nas quais ela se manifesta de forma mais evidente, como na vinheta relatada; o fato do analista resistir parece ser uma constante em toda tentativa de se sustentar a escuta psicanalítica, ele se dê conta ou não disso.


Na maioria das vezes, essa experiência aparece de maneira sorrateira, como quem não quer nada, imperceptível, como um vírus que se dissemina no organismo sem que o percebamos até ter que lidar com os sintomas físicos resultantes da contaminação. A resistência brota, assim, de maneira inconsciente, sem que o analista note, resultando na impossibilidade de escuta. Uma palavra que remete a uma questão insondada pelo analista em sua análise pessoal, já que há um limite em ser uma "pessoa analisada"; um tipo de relação transferencial que se estabelece e que é insuportável para o analista; um paciente que não se adequa ao ideal de analisabilidade concebido pelo analista. Nessas ocasiões, o significante foge dos ouvidos do analista, levando-o a romper com a tentativa de sustentar uma escuta: desiste do caso, faz algo para que o próprio paciente desista ou rotula-o de intratável.


Uma outra resposta do analista à resistência é possível se considerarmos que o analista sempre resiste, não sendo encarada como uma falha, mas como um acontecimento inerente à escuta psicanalítica. Levando em conta a resistência como elemento inseparável de sua escuta, o analista pode transformar o que seria uma impossibilidade em uma dificuldade, dando espaço para a elaboração de estratégias de manejo da resistência, tratando dela em sua análise pessoal, na supervisão clínica, na interlocução com seus colegas, no estudo teórico e na escrita.


Nesse sentido, vale a pena não esquecer da afirmação de Lacan de que não há na análise outra resistência senão a do analista, ou seja, de que o sentido, por exemplo, da perplexidade vivenciada por mim na escuta do adolescente deve ser buscado no ponto em que a narrativa dele me afeta e no que ela se articula às minhas questões pessoais – mesmo que questões de ordem social (exclusão, violência) e material (pobreza) estejam em jogo. Ter como pressuposto que quem resiste primeiro é o analista já parece ser um grande passo.


Além disso, não é evidente a existência de momentos de, digamos, escuta “pura”, como se aí a resistência não estivesse agindo. Uma outra direção, mais realista, é supor que não há possibilidade de escuta sem o comparecimento de sua própria impossibilidade, isto é, da ação da resistência do analista no que ele escuta do sujeito. A questão é como a encaramos e lidamos com ela, sendo as respostas elaboradas de modo singular a depender do analista e do próprio caso.


Sabe-se que, ao final de um processo analítico, de uma sessão de análise, de tudo aquilo que fazemos em psicanálise, sempre fica um resto indefinível, não manejável, inarticulável. É o que, por um lado, recoloca a problemática de que o analista não é livre de resistências, sejam elas pessoais, teórico-clínicas e/ou políticas, e que, por outro, possibilita a continuidade do trabalho de escuta sem que – oxalá! – o analista se identifique com a figura de um super-analista, superior e invencível, escutando o sujeito do inconsciente apesar do que nele a isso resiste.



Gabriel Bartolomeu




Indicações de leitura:


FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). Obras completas, volume 10: observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia: (“O caso Schreber”): artigos sobre a técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010. pp. 133-146.


FREUD, Sigmund. Resistência e repressão. IN:______. Obras completas, volume 13: conferências introdutórias à psicanálise (1916‑1917). São Paulo: Companhia das Letras, 2014. pp. 381-400.


LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 591-652.


ROSA, Miriam Debieux. Uma escuta psicanalítica das vidas secas. Revista Textura, São Paulo, ano 2, n. 2, p. 42-47, 2002. Disponível em: <http://casadaarvore.org.br/wp-content/uploads/2015/01/Uma-escuta-psicanal%C3%ADtica-das-vidas-secas-Miriam-Debieux.pdf>. Acesso em: 17 maio 2018.


ZYGOURIS, Radmila. A escola da rua. Revista Vórtice Psicanálise, São Paulo, 2017. Disponível em: <http://www.revistavortice.com.br/2017/08/transmissao-escola-da-rua-radmila.html>. Acesso em: 17 maio 2018.

© 2018-2020 | Aprendimentos Clínicos | aprendimentosclinicos@gmail.com | São Paulo - Brasil