• Christopher Rodrigues Anunciação

A experiência de narrar: uma reflexão ao trabalho do psicanalista em contextos sociais precários


No texto, “O narrador” de Walter Benjamin, o autor trata da experiência de narrar como um princípio de organização da experiência humana e de inscrição histórica a partir do compartilhamento das narrativas. Narrar é narrar com um outro que, ao escutar, é capaz de transmitir o que se narra, produzindo um registro.


Interessa-nos o que Benjamin demonstra sobre a experiência de narrar em relação aos combatentes da Segunda Guerra Mundial. Com o fim da guerra, ao invés de serem capazes de narrar as experiências vividas, os combatentes experimentavam um emudecimento que Benjamin nomeou como um empobrecimento da experiência de narrar. Essa dificuldade de narrar estava associada ao horror das experiências vividas que, pela sua obscenidade, não parecia encontrar inscrição histórica que pudesse fazer delas um registro. Havia uma obscenidade em transmitir o horror, e nesse jogo, calavam-se.


Algo decisivo para o desenvolvimento da psicanálise, a partir de Freud, foi a valorização da experiência de narrar de cada sujeito. A reboque da hipnose, o gênio freudiano o conduz para a possibilidade de tratar os pacientes escutando suas histórias – a famosa talking cure freudiana.


Enquanto em Benjamin a experiência de narrar trata-se de um compartilhamento de vivências e experiências, na psicanálise as narrativas possuem, a partir de Freud, o estatuto de tratamento, onde a construção de uma narrativa sobre sua própria história possibilitava o restabelecimento mental do paciente. O que há de semelhante na descoberta freudiana com a acepção de Walter Benjamin é que as narrativas têm um estatuto organizador da experiência humana, elas são capazes de transmitir algo, seja a ancestralidade em Benjamin, seja o sofrimento em Freud.


Quando tratamos, portanto, da construção de narrativas na psicanálise, tratamos da possibilidade de transmissão de um sujeito para um outro sobre seu sofrimento, de sua angústia na forma de sua própria história familiar, o que Lacan chamou de “mito individual neurótico”, ou seja, aquela construção particular do sujeito sobre sua própria história como algo do passado que se revive no presente e não para de se inscrever.


Isto posto, interessa-nos na concepção de Benjamin o que ele marca como um empobrecimento da experiência de narrar. Isto foi possível encontrar quando, na escuta psicanalítica em contextos sociais precários, a partir da inserção em serviços de assistência social. Nessa acepção, se construir uma narrativa sobre o sofrimento é capaz de produzir a melhora do indivíduo atendido, pode haver um sofrimento que se produz pela incapacidade de narrar?


Algo difícil de definir é como um psicanalista pode atuar em contextos sociais precários, ou ainda, o que pode a psicanálise frente à pobreza, à miséria, às condições precárias de moradia e subsistência ou ainda, frente àqueles sujeitos que experimentam cotidianamente o abandono institucional, vivendo nos extremos de cidades como São Paulo, onde os serviços públicos simplesmente não conseguiram chegar.


Durante o ano de 2015, pude atuar em uma periferia da cidade de São Paulo através de um CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social) realizando acompanhamento psicossocial de indivíduos e famílias principalmente através de atendimentos, grupos focais e visitas domiciliares. No encontro entre assistência social e psicanálise, a primeira questão que emergiu era justamente sobre a dificuldade de escutar os sujeitos, uma vez que, à primeira vista, não parecia haver uma queixa em jogo, um sofrimento que fosse causa ao psicanalista para além das condições de subsistência que encerravam as narrativas ouvidas cotidianamente.


Nos primeiros atendimentos, tudo que ouvíamos eram as queixas materiais, que tinham absolutamente sua razão de ser colocadas, dado o abandono desses indivíduos e famílias das garantias elementares para a manutenção da vida. Contudo, isso produzia um engodo: a dificuldade de ouvir narrativas que pudessem ultrapassar a queixa material para algo do sofrimento psíquico que estivesse atrelado a isto.


Minha primeira hipótese era que, as pessoas não falavam, pois parecia haver uma resistência dos profissionais em ouvir. Longe de conseguir analisar detalhadamente essa questão, a dificuldade de escutar em contextos sociais precários, tem a ver, entre outras coisas, com a complexidade das demandas dos sujeitos. Uma forma de conseguir sobreviver àqueles cenários de menor subsistência era de não tornar atenta a escuta.


Além disso, havia uma fantasia que podia ouvir dos atendidos no CREAS de que os trabalhadores nos serviços públicos sempre “escutavam mal” ou simplesmente “não escutavam” e por isso pouco se falava durante os atendimentos. O que percebi é que, ainda que se pudesse romper essa primeira barreira, convidando as pessoas que passavam pelo CREAS a falar, ainda havia muitas dificuldades para elas falassem de si.


Quando nos atendimentos era possível romper essa identificação imaginária entre os profissionais e os atendidos no serviço, abria-se a possibilidade de intervenções que privilegiassem a escuta do sujeito, para além das queixas materiais e sociais que eram trazidas ali. Dispostos a falar conosco, convidávamos nos grupos realizados para que contassem suas histórias. A partir disso, algo novo se revelava nessas narrativas que nos remete às experiências de guerra dos combatentes: havia uma dimensão de horror das experiências que eram difíceis de ser transmitidas.


Havia, portanto, um resto dessa queixa material que sobra ao analista que se dispõe a atuar nesses contextos. Além das questões materiais que eram direcionadas ao serviço, que se tratando de um aparelho de Estado de Assistência Social, está marcado por essa significação, quando há alguém disposto a ouvir “um pouco mais” sobre os sujeitos, revelavam-se histórias de violência e violações recorrentes. Narrativas que não encontravam lugar na experiência compartilhada, muito bem representadas pela resposta de outros profissionais que ali atuavam e, eventualmente, puderam ouvir essas histórias: essa não é nossa demanda.


Não era também, no entanto, uma demanda da saúde, muito menos do trabalho, ou do direito, ou seja, a dimensão do sofrimento de sujeitos marcados pela precariedade material calava-se em seu próprio horror e permaneciam mudas, até a nossa chegada.


Assim sendo, como Walter Benjamin pode nos ajudar a pensar o trabalho do analista nesses contextos? Quando o autor trata da importância do compartilhamento de experiências através da narrativa como uma preservação de nossa dimensão humana e histórica. Em psicanálise, podemos tratar isso como uma transmissão.


Que efeitos haviam em sustentar uma transmissão das histórias de vida dos atendidos no CREAS? O de produzir narrativas sobre o indizível. A violência policial, o abandono institucional, a violência doméstica, a morte prematura, o desaparecimento, a violação sexual eram apenas alguns temas que iam tomando corpo em visitas domiciliares, em atendimentos de grupo ou atividades coletivas no território. Suportar escutar aquilo que parece indizível pode ser a principal tarefa do psicanalista inserido nesses contextos, uma vez que, a escuta produz o efeito de transmissão no sujeito, que quando fala, articula uma posição subjetiva sobre aquilo que diz.


Quando éramos realmente capazes de escutar histórias que caíam no limbo da “demanda de ninguém”, conseguíamos encontrar condições para reinserir aqueles sujeitos em uma materialidade histórica. A escuta de mulheres vítimas de violência, por exemplo, produziram efeitos no território de organização de mulheres que se reuniam para pensar resistências coletivas. O reconhecimento dessas histórias e a construção dessas narrativas é que possibilitavam uma nova inscrição social para aqueles sujeitos.


A psicanálise, naqueles contextos, não era capaz de solucionar as situações de precariedade ou mesmo de violência. Muito menos devíamos inscrever nossa prática nessa lógica. Mas o que era possível fazer produziu efeito sobre os sujeitos frente o “horror da guerra”: o de construir narrativas que, olhando para o passado, os possibilitavam mirar o presente.



por Christopher Rodrigues Anunciação


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