• Carolina Ribeiro

O Acompanhamento Terapêutico no contexto escolar


Atuando há alguns anos como acompanhante terapêutica em escolas, um questionamento frequente que escuto é sobre quem são os alunos que possuem demanda para o acompanhamento terapêutico: para quais alunos é indicado um acompanhamento terapêutico? Qual a função do acompanhante terapêutico (AT) nas escolas?


Acompanhamos crianças consideradas agressivas, com dificuldade na alfabetização ou que não possuem o mesmo tempo do aprender se comparadas às crianças de sua sala. O trabalho de AT se direciona a alunos que têm dificuldades na socialização com outras crianças, que podem indicar alguma limitação física, doenças degenerativas, questões relacionadas à aprendizagem, perdas neurológicas e/ou cognitivas. Ainda, somos chamados para acompanhar alunos que estão com dificuldades no laço com o outro, com a aprendizagem, no laço com a linguagem e no laço com as regras.


Não somos convocados para acompanhar o aluno que está respondendo ao “ideal” almejado pela escola, nos chamam para escutar o aluno “problema”, aquele que, diante dos olhos dos educadores, não responde ao ideal normativo que lá impera. A escola, em muitos casos, se sente perdida, impotente e sem recursos para lidar com a dificuldade apresentada pelo aluno. Deste modo, a presença de um acompanhante terapêutico na escola nos sugere que, no encontro entre a instituição e a criança, algo não vai bem.


Como o principal lugar social da criança, a escola é rede de transmissão de valores, conhecimentos culturais e regras sociais que contribuem para a constituição psíquica e construção de seus laços sociais. Quando uma criança vai à escola, ela constrói um modo particular de responder às demandas sociais, coletivas e pedagógicas. Isto é, haverá uma maneira singular de cada um posicionar-se diante de seu contexto escolar, que diz respeito ao seu funcionamento subjetivo.


Em 1994 foi oficializada a Declaração de Salamanca, que sustentou e defendeu legalmente o direito de todas as crianças a frequentar e participar da escola. Essa lei, por um lado, cumpre uma função importantíssima, garantindo o direito das crianças em estar nas escolas, representando um avanço político e social inegável. Por outro lado, entendemos que o contexto jurídico e as leis por si só não garantem o lugar de “aluno” dentro de uma escola. Dito de outra forma, ir à escola não garante que os atos da criança estejam inscritos nos laços sociais e pedagógicos do contexto escolar. Partindo daí, a práxis do AT na escola visa construir um lugar mais autêntico para a criança dentro do seio escolar - um lugar possível, não ideal. Lugar de pertencimento. Um lugar, ainda, onde o laço entre a criança e o professor esteja, finalmente, operando. E para que isso ocorra, é necessário da parte do acompanhante terapêutico um trabalho com a professora, coordenadora, auxiliar de sala, um trabalho com o entorno de nosso acompanhado. Todos ali pensando como lidar com aquele aluno, ou seja, é um trabalho coletivo, onde nosso objetivo final, a longo prazo, é nos tornarmos dispensáveis para a escola e para o nosso acompanhado. Entramos na cena, para sair de cena.


Entendemos que a base teórica que sustentará um acompanhamento terapêutico será o ponto chave para a direção do tratamento dos casos clínicos. Sob o tripé formação psicanalítica, supervisão e análise pessoal, pensamos o acompanhamento terapêutico como um dispositivo clínico comprometido com a ética no atendimento em saúde mental. Nas escolas, um aliado da inclusão escolar, cumprindo sua função ao oferecer suporte ao aluno, à instituição em questão, ao professor e à família. Partimos de perguntas que dizem respeito à singularidade da criança acompanhada e, a partir de tais indagações, temos como objetivo atuar no sentido de facilitar o diálogo entre o sujeito, a família e a equipe escolar.


É importante estarmos advertidos enquanto acompanhantes terapêuticos, que podemos entrar em um lugar bastante delicado quando convocados pela escola. Por vezes, somos chamados por um pedido explícito escolar, a fim de ensinarmos a forma correta de como a escola deve se comportar em relação à criança. E é justamente nesse lugar que não podemos estar. Estamos ali para acolher esse pedido, o que é muito diferente de responder a ele. Acolher é escutar, e a partir dessa escuta transformar demandas em enigmas, investigar os ideais da escola que estão em jogo, suscitando reflexões das partes envolvidas (professor, coordenador, auxiliares, AT, família) e assim, promover um modo autêntico do acompanhado estar na instituição.


A partir, como já citado anteriormente, do referencial psicanalítico, entendemos que o acompanhamento terapêutico é um dispositivo clínico que estará nas escolas como apoio aos processos inclusivos, e não como único responsável pela inclusão da criança. Ele dará apoio e oferecerá sua escuta analítica a todos os protagonistas da inclusão escolar, suscitando perguntas e respostas a partir de afirmações e posições cristalizadas.


Deste modo, apostamos em uma escuta e manejo clínico pautados na suspensão de qualquer juízo moral diante de nossos pacientes, cuidando do modo particular de cada criança se colocar em suas relações interpessoais, sustentando suas marcas subjetivas e seu modo particular de estar na instituição.



por Carolina Ribeiro




Indicação de leituras:


Mendonça, Leonel Dozza de. (2017). Acompanhamento Terapêutico e Clínica do Cotidiano. São Paulo: Agente Publicações, 2017.


Spagnuolo, Lenara Spedo. Acompanhamento terapêutico na escola: entre o educar e o analisar/ Lenara Spedo Spagnuolo; orientação Rinaldo Voltolini. São Paulo: s.n,2017.


Jerusalinsky, J. (2016). Travessias e travessuras no Acompanhamento Terapêutico. In:Jerusalinsky, J. (org). Salvador: Ágalma, 2016.

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