• Darlene Ribeiro da Silva

A escrita como sustentação da posição de analista


Escrever a clínica é algo que aparece como oficio do psicanalista desde a sua fundação. Com a criação da Psicanálise, Freud inaugura uma nova forma de falar sobre a experiência de escuta do sofrimento do sujeito, isto é, a análise, e assim, através da investigação e da reconstrução das narrativas sobre os sonhos e pelos relatos de seus casos, vai elaborando um estudo teórico e uma obra inéditos em várias formas, inclusive em sua própria escrita.


Aprendi com meu encontro com a Psicanálise que teria que investir em meu estudo teórico, análise pessoal e supervisão para que pudesse me posicionar como analista e poder sustentar essa função. Aprendi que esse percurso possibilitaria que eu conseguisse sustentar a escuta do sujeito e realizar as intervenções necessárias para exercer a Psicanálise.


Por outro lado, ao longo de minha formação, deparei-me, seja no consultório ou na instituição, com casos que demandavam um posicionamento, um manejo, uma escuta que me interrogava e que não era possível encontrar uma resposta para esta interrogação apenas em um texto ou com algo que um sabia previamente. Ou seja, não bastava somente buscar referência na teoria já estabelecida, algo na experiência me forçava a buscar em mim algo singular, algo da minha posição como analista que devia ser de minha autoria.


Percebi que só ler os grandes teóricos não iria me garantir uma autorização de ser psicanalista, e foi aí que a escrita se tornou importante em minha trajetória. Ainda estou começando a me implicar nesse terreno, mas agora sei que não dá pra evitar esse encontro. Percebi que para me autorizar em ser psicanalista era preciso ir além do tripé estudo teórico, análise pessoal e supervisão clínica, era preciso ser também autora da minha experiência, e para ser autor é preciso sair da zona de conforto. A escrita é essa saída.


Quando nos dispomos a colocar no papel sua narrativa do caso, as intervenções, as dúvidas diagnósticas e suas relações com a teoria, o que se vê é que nada é garantido! E que implicar-se nisso irá colocar mais dúvidas do que certezas, e a garantia é que você irá construir-se e desconstruir-se a cada tentativa. Ao mesmo tempo, algumas coisas se esclarecem, conseguimos enxergar como estamos nos posicionando em relação à escuta do sujeito e ao cenário psicanalítico. A construção do texto, por si mesma, é uma mostra do nosso posicionamento.


A escrita nos coloca numa posição mais ativa diante da experiência clínica, nos faz nos questionarmos, escrevermos, reescrevermos, e, mais importante, nos apropriarmos dessa experiência. Isso se mostra essencial para que eu possa narrar a clínica em nome próprio, elaborando uma compreensão singular e inédita.


Escrever é sempre se deparar com o que não se sabe, formular um texto nunca é fácil e seguro. É se aventurar em uma construção, é pegar bloco por bloco e montar algo inesperado, que não se sabe o que será até estar pronto. Pronto, mas nunca acabado! Pois, o encontro com a escrita revela que não se poderá dar conta de tudo, revela mais o que falta do que o que se tem.


Escrever para mim é esse encontro com o não saber, e como isso é angustiante e libertador ao mesmo tempo. A escrita faz com que se enfrente um risco, sem nenhuma certeza do que virá, mas ao mesmo tempo te coloca num lugar privilegiado, não porque irá escrever textos incríveis, mas porque te localiza, faz marcar algo do teu percurso e, ainda mais, para onde seguir.


Minha experiência com a escrita tem me permitido me situar diante de minha formação como analista e tem me impulsionado a buscar, a partir do meu não saber, saídas e alternativas, produzindo um movimento desejante.


“Não ceder do seu desejo” foi algo que me ensinou que teria que produzir algo sozinha, o que desejava para mim. Lançar-me nesse projeto me fez enfrentar muitos medos, aprender que nunca se está preparado, que sempre terá algo a ser construído, e que um texto pode transmitir justamente essa construção que nunca se finda.


Arriscar que posso produzir algo a partir do meu não-saber, para além de um suposto saber-todo, potencializa a sustentação de minha posição de analista e me mostra que sempre há algo por vir. Algo que permite também a troca, a partir do momento que alguém lê seu texto, pois abre-se uma porta para a discussão, a crítica, a conversa e o laço.


Darlene Ribeiro da Silva

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