• Isabela Ledo

A função da escrita na formação de um analista


“O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo”


(Clarice Lispector)


1 – A escrita como escol(h)a na minha formação


Senti-me provocada, neste evento, a trazer considerações sobre a função do escrever na formação de um analista. Observo que, de entrada, já no título, trago uma ambiguidade muito bem-vinda ao modo como decidi desenvolver a questão: em vez do termo escrever, coloco a função da escrita, mas escrita de quem? A minha enquanto analista? A dos escritores pelos quais também nos formamos? Acredito que, não à toa, esta ambiguidade me interessa particularmente, pois é concernente ao meu percurso de formação.


O início da minha formação fora atravessado por um encontro decisivo com a escrita de Clarice Lispector. Tive uma feliz descoberta com esta autora, no segundo ano do ensino médio, mais especificamente, a partir do seu livro chamado “Felicidade Clandestina”. Lembro-me que algo daquela forma de escrever, muito mais que o próprio conteúdo da narrativa, me fascinava: era complexa e, ao mesmo tempo, aparentemente, desordenada, despreocupada com o encadeamento lógico do sentido. Eu tinha uma experiência bastante ambígua na leitura: de um estranhamento a uma espécie de intimidade, que me levava a impressão de que eu estava sendo lida e não mais o contrário. Depois deste contato, produziu-se uma convicção nada clara do ponto de vista racional sobre os caminhos da minha formação: eu faria vestibular para psicologia. Os motivos desta decisão ficaram, tal como o livro, clandestinos por um bom tempo. Eu buscava explicações mais bonitas, socialmente mais aceitáveis para sustentar a razão desta importante escolha de carreira: vou fazer psicologia para “estudar a complexidade da mente humana”, “para compreender os efeitos das nossas emoções nos nossos atos”. Parecia quase ilegal na época dizer que minha decisão partia de algo que nem eu mesma entendia: fazer psicologia por um encontro com Clarice. Enfim, seguir por aqui já daria um outro texto!


Eis que, no primeiro ano de faculdade, na primeira disciplina de psicanálise, inspirada pelo entusiasmo da minha querida professora Angélia Teixeira, fui convidada a escrever. Como escrever sobre qualquer coisa ligada à psicanálise, campo ainda tão desconhecido para mim? A proposta era que eu escolhesse um tema em Freud e convidasse mais dois autores de outras disciplinas para conversar com ele. A escolha do tema foi quase “instintiva”, falaria, definitivamente, sobre Angústia, e vocês já devem até imaginar o porquê, dadas as circunstâncias tão desconhecidas. Convidei, então, ingenuamente, sem imaginar o trabalho que me aguardava, Clarice e Sartre para dar uma palavrinha com Freud. À primeira vista, eu apostava num papo animado destes três. Só escrevendo, no entanto, me dei conta que a conversa deles, de fato, era comigo. Esta escrita teve uma função de marca na minha trajetória que parecia retificar aquela primeira escolha do curso universitário. Não se tratava de uma decisão pela psicologia, mas pela psicanálise que eu seguiria sustentando a minha formação. Não sem angústia, é claro, aliás, nem teria como, já que ela esteve em causa desde o início da conversa.


Então, até aqui, minha formação seguia atravessada pela escrita: ora de Freud, ora de Lacan, muitas horas de Clarice e ora pela minha própria. O ato de escrever passou a me acompanhar de algum modo a partir dos efeitos: da minha análise, dos casos atendidos, das supervisões (como supervisionanda e como supervisora), como parte do meu cotidiano nos corredores dos hospitais, como pesquisadora. A função da escrita teria o mesmo estatuto em todos os casos? Se tomarmos a questão pelo prisma de que o ato de escrever também forma um analista, acredito que todos esses escritos possam se encontrar neste elo. Para sustentar tal argumentação, tomarei, agora, em um segundo tempo, Freud com seu texto “O estranho” e Clarice em um dos seus contos “Perdoando Deus”, do seu livro Felicidade Clandestina, para uma nova conversa!


1.1 – Escrever também forma um analista


Escrever, ao longo deste percurso, foi uma experiência que sempre me trouxe uma estranheza em muitas dimensões, especialmente, do lugar de quem escrevia, mas também pelos olhos dos leitores. Suponho que, não raro, cada um aqui, ao escrever, já foi tomado por um esvaziamento repentino, numa cabeça que, há bem pouco, parecia florida de ideias. Outra experiência também geradora de espanto é retornar a algo que já escrevemos há muito tempo: há um tanto que até nos reconhecemos ali, na letra, talvez, num termo ou noutro; mas também parece que se escancara um desconhecimento – fui eu mesma que escrevi isto? Ou ainda, vocês já devem ter experimentado escrever um texto, aparentemente, impecável, redondinho, claro, objetivo e um amigo-leitor ter-lhe devolvido com uma curiosa série de pontos de interrogação - Como assim o outro não entendeu?


Este estranhamento peculiar a tais situações, muitas vezes, suscitado pelo encontro com o nosso próprio texto, me remeteu ao texto de Freud (1919) “O estranho”. O autor trará o conceito de “Estranho” a partir de exemplos literários, justamente, ressaltando os efeitos do (des)encontro com a escrita de outrem. Para conceitualizar, ele partirá, curiosamente, da ambiguidade que a palavra “estranho” carrega em alemão. Na língua alemã Unheimlich, remete, ao mesmo tempo, a algo estranho e familiar, embora esta familiaridade ficasse de algum modo esquecida. Freud (1919) trará inúmeros exemplos para nos indicar que o Estranho estaria do lado de uma vivência e não de uma compreensão intelectual. Vivência experimentada pelo “eu” como uma espécie de descentramento. É como se houvesse uma espécie de colapso do eu, fazendo daquele encontro algo estranho a si e, ao mesmo tempo, familiar.


Ao escrever, suponho que é a este encontro com o Estranho, com isso que parece nos habitar sem que o saibamos, ao qual somos convocados. É um paradoxo interessante: geramos algo “novo”, um texto, e ao mesmo tempo, estranhamos o fato de nem sempre o tomarmos como familiar, como conhecido, como íntimo. Encontrar-se com aquilo que fica “por dizer” nos nossos textos, seja aos nossos olhos, seja indicado pelos olhos de um leitor, nem sempre é fácil. Muitas vezes, torna-se causa de angústia, de vacilações, de desistências, de embaraços no ato de escrever. Por que tanta estranheza, muitas vezes, disfarçada de indignação, de frustração por uma experiência que já nos “deveria” ser tão íntima que é a de não conseguirmos dizer tudo, de não conseguirmos falar como supomos que falaríamos ou escreveríamos?


Lembrei-me de um conto de Clarice que, talvez, possa nos ajudar a ilustrar tal ideia. O conto chama-se “Perdoando Deus”, do livro Felicidade Clandestina. A narrativa trata de uma menina que havia “inventado” um Deus. Um Deus que, por ser fruto de sua invenção, ela nutriria um sentimento “maternal”, como se o conhecesse intimamente. Este Deus asseguraria aquele amor pelo qual ela parecia ser tomada diariamente. Até que, mesmo protegida por este “amor inocente” da sua própria criatura, um dia, a menina quase pisa num rato morto e é invadida por um horror de viver. Ela fica perplexa, não conseguia produzir um nexo, uma lógica entre sentimentos tão antitéticos: amor e horror. Isto não poderia ser obra dela, mas de Deus. Um Deus que lhe parecia tão íntimo, agora, era um estranho e estaria alheio, do lado de fora – “em mim é que Ele não estava mais”, diz a menina indignada. Segue com uma estranheza, mas esta logo cede lugar ao sentimento de culpa: isto deve ter acontecido porque Deus queria ensinar-lhe, pois ela não sabia amar direito, era brigona, não se conhecia bem e segue procurando motivos. Até que, em algum momento, ela passa a acolher este estranho Deus, este estranho sentimento como algo que, inevitavelmente, parece habitá-la: “eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse”.


Por que nos escandalizamos tanto com este tão velho desencontro que, por vezes, revisitamos com o ato de escrever? Um desencontro que se formos pensar, tem algo de muito familiar. Frente a ele, tal como a menina, muitas vezes, encontramos refúgio na culpa (nossa ou do outro): se estudássemos um pouco mais, se tivéssemos um pouco mais de tempo, se já tivéssemos mais a frente da formação, se alguém tivesse nos explicado melhor, certamente, teríamos um boníssimo encontro com o nosso texto. Será mesmo?


Neste sentido, é possível dizer que escrever forma um analista, na medida, em que podemos acolher aquilo que nos parece estranho, fora de lugar, não só como obstáculo, mas como causa de trabalho. Escrever forma um analista, na medida em que derrubamos com a ponta do lápis um ideal de produzir um texto extremamente objetivo, claro, bem acabado. Ou ainda, quando suspendemos a crença de que haveria um texto que se asseguraria por um pleno acesso pela razão. Colocar estes ideais em xeque na nossa formação, por meio da escrita, não corresponde a nos desimplicar do desafio de tornar o que escrevemos mais acessível, possibilitando uma comunicação. Não se trata de enveredar por um caminho de escrever num solipsismo – só você pode acessar – ou de dar consistência a uma escrita ininteligível. É importante manter o esforço, o trabalho e a aposta de que algo se transmita, mas acredito que o que é formativo para um analista nesta experiencia é justamente sustentá-la a partir desta advertência: não se pode dizer tudo, algo resta, algo fica sempre por dizer nesta tentativa. Quando escrevemos, grafamos algo deste Real, disto que é arredio à linguagem, mas há um resto que, estranhamente, pode ser, aos poucos, menos causa de angústia, e mais causa de trabalho, de desejo para aquele que escreve.


Não seria a partir desta aposta de que é possível um encontro produtivo com este estranho-familiar que sustentamos a nossa escuta diária com os nossos pacientes? Esse desencontro entre o que pensamos e aquilo que passamos para o papel, entre o que falamos e o que o outro escuta, ou o que pensamos que dizemos aparecem não sem uma estranheza. Escrever, no entanto, pode contribuir à formação de um analista, justamente, na medida em que dá chance para vivenciarmos o estranho, e não só entendê-lo de um ponto de vista teórico, intelectualizado. Vivência, ao meu ver, em alguma medida, parecida com a do ato de falar na análise, de ler Lacan, de escutar os pacientes.


Como disse Clarice, sabiamente, em um outro texto chamado “Sobre a escrita” – “todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora”. Qual posição um analista em sua formação pode tomar diante desta “sina”, deste irremediável “estranho”, deste não-saber que se presentifica no ato de escrever? É um Aprendimento cotidiano esta tomada de posição, que se coloca como uma aposta para se fazer aurora pela ponta do lápis, apesar do crepúsculo inevitável aí imbricado. Aprendimento que temos experimentado e sustentado com este projeto que partilhamos hoje com vocês, fruto de uma aposta coletiva de que o ato de escrever se, por um lado, deforma os nossos ideais de analistas, por outro, nos forma como analistas. A minha aposta aqui escrita e, agora, partilhada pela leitura, é que nesta trajetória, ainda tão inicial, cada um possa ter uns nos outros (membros do Aprendimentos Clínicos), bem como, nos nossos amigos e colegas leitores a marca desta íntima estranheza como causa para continuar a escrever!


Isabela Ledo



Referências


Freud, S. (1919/2006). O estranho. Obras completas, ESB, v. XVII. Rio de Janeiro: Imago Editora.


Lispector, C. (1998). Perdoando Deus. In: Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Ed. Rocco.

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