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O momento decisivo


A palavra ensaio significa teste, experimento. Ensaio é também um gênero textual no qual o autor não tem a pretensão de que sua escrita exclua a sua subjetividade. Esta apresentação foi elaborada nos moldes de um ensaio, sem visar um aprofundamento teórico, mais próximo de um passeio pelas impressões que a escrita deixa em mim.

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Por que escrever? Para que se dar ao trabalho de colocar em palavras escritas aquilo que se passa no âmbito da fala e do pensamento? Por que escrever sobre a experiência clínica? Para que tentar imprimir num texto algo de uma análise que é sempre fugidio? Nunca se escreve o que se fala ou o que se pensa, há sempre um obstáculo quando nos colocamos a escrever. Escrever sobre a experiência analítica, aquela que se dá numa relação transferencial, artificialmente construída e sustentada, regrada pela associação livre, coloca mais dificuldades. Escreve-se sobre o que uma outra pessoa vivencia subjetivamente. Há um outro, e um Outro, além de um sujeito nessa escrita.


Quando quis ter um espaço para escrever, corri para a universidade, o mestrado me pareceu o caminho mais acertado para atingir o meu objetivo. Não que eu não escrevesse antes: lembro-me desde a adolescência de manter um caderno, quase que um diário, reservado as anotações de meus pensamentos e de trechos de livros que lia. Tentei encontra-los para ver se algo ali se mantinha de mim hoje, só que foram perdidos, restando-me apenas a lembrança de eu deitado na cama, tentando dar um jeito na passagem lenta do tempo naquelas tardes tediosas de minha cidade natal. A palavra no papel, e mais tarde na tela do computador, coloca em cena a minha relação com o tempo.


A escrita, seja ela acadêmica ou não, nos convoca a assumir uma posição no tempo. Tempo é algo que temos e temos que aprender a lidar ao escrever. Por conta da escrita dessa apresentação, por exemplo, coloquei-me a reler vários livros de autores que falam de escrita. Nenhum sobre a escrita psicanalítica. Tentei me abrigar na literatura - queria ser salvo pela Margaret Atwood, pelo Stephen King, pela Clarice Lispector. Eles, percebendo meu desespero pela falta de tempo, já que hoje, no momento em que escrevo esse texto, é quinta-feira, saltaram de banda. Ficaram lá falando, em seus textos, de suas experiências com a escrita e nada me auxiliaram a escrever sobre a minha. Os escritores que lemos nem sempre estão lá quando precisamos deles para garantir a nossa possibilidade de escrita.


O ato de escrever é uma conquista que fazemos sem termos muito mérito dela, normalmente surge por causa de prazos ou de uma necessidade interior que nos submete ao imperativo: “escreva já!”. Essa necessidade surge no metrô, no banho, durante a aula, no meio da noite, ao final de um domingo improdutivo, quando você, tomado pelo tédio, e pela falta de vontade de fazer alguma coisa, assiste na Netflix um filme qualquer. No meu caso, o tempo da escrita não garante muita liberdade.


Em meio a dificuldade de escrever esta apresentação, assisti na Netflix o filme holandês Boys, que conta a história de dois adolescentes em sua descoberta do amor, onde vi-me diante de uma certa tristeza: queria poder escrever uma história tão bonita quanto aquela. Uma história que não fosse muito óbvia, ainda que seja muito óbvia uma história sobre o amor adolescente, e que conseguisse capturar o momento exato em que olhamos para nosso amigo, aos 12, aos 13 ou aos 14 anos, e nos deparamos com a ideia de que ele representa outra coisa que aquilo que todos os outros amigos representam. Queria poder capturar o momento que surge uma certa desconfiança de que aquilo que estamos sentindo é completamente novo.


Esse momento, invariavelmente, aparece com um certo sufocamento, um estranhamento. Confundimos gostar com odiar, querer estar perto com não querer ver na frente. Olhar nos olhos já não é tão fácil, pois estamos afetados. Queria poder escrever algo que captasse esse exato estado de mudança, esse momento decisivo no qual deixamos de amar como criança para amar como adultos (ainda que sejamos adolescentes). Os roteiristas, a diretora e os atores do filme concretizam isso em imagens, em sons. Invejo-os e quero colocar em palavras essa inveja, corro para o computador, ensaio uma frase, arrisco um parágrafo, outro parágrafo, e escrevo um conto intitulado Seus olhos azuis – mas não esta apresentação.


Ao mesmo tempo, penso que escrever sobre a clínica não é muito diferente de escrever um conto, pois essa escrita clínica vem da experiência do analista, da experiência vivida no encontro com outra pessoa. Por ser uma experiência vivida pelo analista sob o jugo da transferência lhe é conferido o direito de falar dela, tentar dar concretude para o seu acontecimento, ainda que preservando a intimidade do paciente. A escrita da clínica e do conto são duas maneiras de textualizar algo que imprimiu uma marca no analista e no escritor. Ainda, escrever sobre a clínica também é tentar captar aquilo que surge para o sujeito, como na descoberta do amor na adolescência, como um momento decisivo.


Henri Cartier-Bresson, fotógrafo francês, tinha como objetivo que suas fotografias fossem a captura de um momento decisivo. Aquilo que ele captava em imagens só podia ser feito se o fotógrafo fosse capaz de, munido de sua câmera, dar o clique num tempo específico, exato. Se o clique viesse um segundo antes ou um segundo depois não seria possível registrar aquele acontecimento do mundo visto através de suas lentes. Na escuta clínica, em certo sentido, estamos também visando essa captura, através de uma intervenção que tenha efeitos de registro, para o sujeito, da forma como ele se vê – ou se posiciona – através de sua própria lente. É na clínica, através da escuta e das intervenções, que tenho a possibilidade de capturar um momento decisivo para o sujeito.

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Voltando à pergunta inicial: por que escrever? Para dar concretude a pensamentos, sentimentos e vivências; para experenciar o tempo de outra maneira; para parar de invejar a capacidade dos outros de captar o momento decisivo; para compreender e, por que não, transformar a realidade; para se surpreender; para se tornar um analista melhor. É por tudo isso que eu escrevo e que quis, com meus queridos amigos, e com aqueles que quiserem se achegar, a concretização do projeto que lançamos hoje!


Obrigado!

Gabriel Bartolomeu

Indicações de leitura:

ATWOOD, Margaret. Negociando com os mortos: a escritora escrever sobre seus escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

LISPECTOR, Clarice. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

KING, Stephen. Sobre a escrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

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