• Christopher Rodrigues Anunciação

Percursos da escrita e a experiência analítica


A relação com a escrita – literatura, poesia, crônica, ensaio – e a psicanálise sempre se estreitou desde Freud. O primeiro caso de psicose da psicanálise, o Schreber, tratou-se de uma análise sobre um livro escrito pelo doente e não de uma análise em pessoa. Passaram pelas análises freudianas os Irmãos Karamazov de Dostoiévski, decerto dos diários de Leonardo da Vinci, as anotações do pintor Christoph Haizmann em uma neurose demoníaca do século XVI, além das inúmeras cartas que Freud trocou com seus colegas e amigos que até hoje nos legam vasto material de análise, e porque não, literário.


Meu primeiro contato com a obra freudiana tinha característica absolutamente literária. Enquanto lia O mundo de Sofia de Joisten Gaarder, vi um certo capítulo sobre um tal “freud”, que após uma pesquisa na internet pude achar uma série de livros. Passava a largo para mim uma ideia de tratamento, mas ali com quinze anos de idade, estive totalmente fascinado pelo Homem dos Lobos, com seu sonho de lobinhos em cima de uma árvore. Viajava por ali como viajei com a Sofia de Joisten Gaarder ou com os elfos de Tolkien. Meu laço com a psicanálise ainda estava em devir após aqueles textos.


Vale lembrar que Freud ganhou prêmios como literário e não como cientista, como dizem que o gostaria, coisa que ouvi também dizer que Skinner se ressente, pois fora reconhecido apenas como cientista, enquanto esforçou-se em sua novela fantástica Walden Two para ser um escritor de literatura, permanecendo o grande homem das ciências que foi.


Não é recente a discussão sobre o estatuto da psicanálise como ciência ou como arte. Hilton Japiassu em psicanálise, ciência ou contraciência? Debruçou-se sobre essa discussão, deixando o leitor em suspenso. Se considerarmos a literatura como arte, seria ela uma arte possível ao psicanalista?


Dizem que o escritor está sempre reescrevendo a mesma história. Gabriel García Márquez, o Nobel de literatura, fora provocado com isso em uma de suas entrevistas. Isto posto, perguntado sobre qual livro ele estaria reescrevendo ele responde categórico: o livro da solidão – em referência a sua obra “Cem anos de Solidão”.


Entre o “freud” dos meus quinze anos e o Freud da análise sete anos depois, muitas coisas tentei reescrever. Entre os anos de 2007 e 2014 mantive um blog em que escrevi muito sobre mim, sobre minhas questões e angústias que não conseguia nomear. A escrita tinha um esforço de reinscrição de algo que não cessava. Meu encontro com a análise dá-se nesse afã de tentar inscrever o sintoma pela escrita. Não raras foram as sessões que trouxe os textos que escrevia na tentativa de dizer sobre algumas angústias.


A formação analítica pelo estudo dos textos fundamentais aliada a análise, fez em determinado momento me deparar novamente com o Freud enquanto literário, entre seus personagens com ratos e lobos e mulheres paralisadas. Fez-me pensar nessa tentativa do escritor de reescrever alguma coisa. Quando Freud apela ao estilo quase literário para narrar seus casos revela-se pela escrita a possibilidade de inscrição do sintoma. Escrever o caso é refazer o percurso da análise e inscrever o sintoma em um tempo, uma história, uma política e uma lógica própria que tem a ver com o desejo de quem se atende e o desejo do analista de formalizar a psicanálise.


García Márquez dizia que se inspirou em histórias de família para escrever seu livro da solidão. Se fizermos um esforço de análise, vemos em sua obra caricaturas histéricas e obsessivas, ou uma organização psicotizante do que era Macondo que faz a delícia de sua narrativa. Nesse sentido é que, percorrer a escrita pode ser uma experiência de percorrer o sintoma, lhe fazer borda, sinalizar seu lócus de formação.


Contudo, quando promovemos o encontro entre a escrita e a psicanálise, o que me é caro e que foi decisivo nesse percurso até aqui é que, a experiência analítica nos permite fazer um salto sobre isso. Nos permite passar de uma escrita do sintoma para uma escrita do desejo. E é isso que gostaria de apresentar a você hoje e deixar como uma possibilidade de reflexão: o quanto o encontro entre escrita e a psicanálise torna possível a inscrição de nosso sintoma e de nosso desejo. Ou ainda, que a escrita nos ajuda a produzir um outro sintoma que é aquele que, na sua rearticulação com o desejo, nos coloca em movimento e faz produzir. Seria arrojado demais? Nós aqui ainda não sabemos. Mas nos provoca a re-conhecer, a dar maior atenção a literatura, bem como as outras manifestações da escrita, tal qual fez Freud em seu debruçamento sobre as obras que elegeu no desenvolvimento da psicanálise. É dessa provocação que parto para realizar os aprendimentos clínicos.


Christopher Rodrigues Anunciação

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