• Carolina Ribeiro

Escrita e Clínica Psicanalítica: uma articulação possível

O tema do presente encontro me fez indagar sobre as dimensões da escrita para o psicanalista, em especial a função do escrever na formação do analista.


Em relação à escrita da clínica, a tradição freudiana se constituiu também através de uma escrita de casos que tornaram-se paradigmáticos e fundamentais para a construção teórica da psicanálise. Observando a sua trajetória na transmissão da psicanálise, o que Freud fez ao longo de seu trabalho foi transformar dúvidas em produção, impactou-se com aquilo que escutava de seus pacientes e escreveu/endereçou a outros, a sua produção, dando corpo teórico à psicanálise.


Desta forma, como todo pesquisador, Freud margeou as bordas do desconhecimento, para construir um conhecimento outro, efeito de sua investigação, de suas dúvidas e interrogações acerca de sua experiência clínica. Colocou-se na posição de construir e aceitar não passivamente o que não se sabia, compartilhando seu (des)conhecimento.

Pensando no processo da escrita, não é sobre isso mesmo de que se trata? Ela exigirá do escritor o encontro com aquilo que escapa ao saber, com o inenarrável, defrontando aquele que escreve com sua própria castração, com o limite imposto pela linguagem e pelo outro. Pensando na transmissão, a escrita é tentativa de transmitir uma experiência, tentativa de endereçamento, o que, por sua vez, modifica a própria experiência primeira, dando-lhe novos significados.


Este horizonte textual nos remete ao entrelace clínica, escrita e pesquisa analítica. Esteve presente em Freud seu caráter investigativo da psicanálise. De um certo modo, podemos dizer que o tripé prática supervisionada, análise pessoal e estudos teóricos, na formação de Freud se deu no entrelace clínica, pesquisa e escrita. Importante pensar que escrever sobre nosso fazer clínico também nos forma enquanto analistas. Não se trata de uma escrita teórica sem endereço. Sempre se escreve para alguém. Como Joel Birman nos aponta em seu texto intitulado “A clínica na pesquisa psicanalítica”:


“O escrever é tentar colocar as nossas pequenas experiências, que são numa certa medida incomunicáveis, em uma linguagem de troca com os nossos pares. Mas isso que é incomunicável vai estar, inevitavelmente, sempre presente como fundo de silêncio do que nós estamos dizendo” (Birman, 1994, p.25).


Entre o que foi a minha experiência clínica, e aquilo que eu passo para o papel, há um estranhamento, um encontro onde não há exatidão, para então poder haver um novo produto. Na medida em que se escreve, há ao mesmo tempo um distanciamento e reconhecimento daquilo que se passou na cena analítica. É preciso distanciar-se, para reconhecer. E o processo de escrita nos dá essa notícia – ao colocar um caso clínico no papel e escrever daquilo que escutamos como analistas, muitas vezes até a lógica discursiva do paciente fica mais clara para nós, como também nosso próprio manejo enquanto analistas.


A relação do psicanalista com a escrita não passa, portanto, por uma transmissão que visa à apreensão de um todo impossível, de uma totalização imaginária e ilusória do que se passa na cena analítica. Trata-se de escrever algo da experiência inconsciente, calcada no efeito da clínica sobre si, no efeito daquilo que chamamos de transferência. Que testemunho (escrito), então, pode o analista dar a respeito do que se passa na sua clínica, nas análises que ele conduz? Seria, de alguma forma, “recuperar” o efeito da clínica, isto é, o fundamento do sujeito, que é (e)feito de linguagem?


Há um exercício, portanto, de passagem e de endereçamento na produção de um texto psicanalítico. Destacamos que a escrita da clínica também tem como função a legitimação de uma experiência, enquanto testemunho, e a criação da própria experiência analítica. Deste modo, o que está em jogo na produção de um texto analítico é a vivência da transferência transformada em produção social, a construção de um saber decorrente de uma ou várias análises e de seus impasses.


A escrita para o analista pode constituir um espaço de construção frente a desconstrução de seu saber vivenciada na experiência da escuta, afinal esta remete o analista ao que não se sabe, ao que está escondido, esquecido, ou seja, ao inesperado.


Sendo uma das psicanalistas que compõe o time do Aprendimentos Clínicos, a minha aposta e o meu desejo é que o encontro com o não saber, que se é produzido em uma produção textual, seja menos causa de angústia e mais causa de trabalho para quem já escreve ou pretende se aventurar nesse mundo da escrita. Que sigamos em frente, sustentando juntos os obstáculos que a escrita nos coloca, tão desafiadores e formadores ao mesmo tempo. Obrigada pela leitura!


Carolina Ribeiro

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