Reflexões sobre o manejo da transferência em um Hospital-Dia

September 24, 2018

Essa reflexão é fruto da experiência de trabalho como psicanalista num Hospital-Dia, um serviço particular de atendimento em saúde mental. O Hospital-Dia é um modelo intermediário entre internação e tratamento ambulatorial, podendo ter como objetivo ser alternativo à hospitalização psiquiátrica, dar continuidade à internação fechada, ser uma extensão ao tratamento ambulatorial e reabilitação e apoio a pacientes crônicos.

 

Esse serviço leva em conta o conceito de clínica ampliada, pensando a clínica para além da relação médico-paciente com ênfase na doença, englobando o compromisso com o sujeito de modo singular, na tentativa não só de reconstrução dos fatores que ocasionaram a patologia, mas também as correlações que o paciente estabelece com sua vida.

 

A partir disso, o hospital-dia se estrutura em atividades grupais, tais como grupos operativos, oficinas terapêuticas, atendimento individual, atendimento a família e atividades comunitárias, visando principalmente à inserção social do paciente.

 

Neste contexto o psicanalista se vê fora do setting analítico convencional, levantando a questão: como se dá o manejo transferencial e a sustentação da posição ética do analista, em um espaço no qual a escuta se realiza não só em salas de atendimento individual, mas, principalmente, no espaço de convivência, tal como nos atendimentos em grupo?

 

A fim de promover uma reflexão sobre a escuta e estabelecimento da transferência na instituição utilizo uma vinheta clínica: Camila (nome fictício), 35 anos, com inúmeras internações com tentativas de suicídio e diagnóstico de transtorno depressivo recorrente, sem conseguir manter sua rotina de trabalho e de casa é encaminhada ao hospital-dia. No hospital-dia essa escuta é oferecida nos grupos e os pacientes, em grande parte, aceitam essa oferta.

 

A paciente é apresentada ao grupo de Reflexão, um grupo semanal que tem como objetivo a discussão sobre temas propostos pelos integrantes do grupo, com a ideia de ter um espaço livre, em que os pacientes possam escolher o que desejam falar.

 

Freud definiu o tratamento psicanalítico, primeiramente, como a escuta do inconsciente, escuta que se sustentava pela associação livre. Mas para que para aconteça o tratamento psicanalítico, é necessário que se estabeleça uma relação singular entre a demanda pela escuta e o ato do analista, o que Freud, denominou no seu texto de 1917, de “A transferência”. Ou seja, uma força motriz estabelecida entre o médico e o paciente, “que afetuosa ou hostil (...) torna-se então seu melhor instrumento, aquele com o qual podem se abrir os mais cerrados compartimentos da vida psíquica”.

 

Camila se põe a falar nos grupos e aparece, em seu discurso, predominantemente, a relação com a mãe. Ela afirma veementemente como dependente da figura materna, como a relação com a mãe é próxima e o medo de ficar longe dela, “a minha mãe está sempre comigo, só com ela me sinto segura” (sic). Fala da mãe como aquela que acaba fazendo tudo para ela, e de si, como quem não consegue fazer nada sozinha. A analista intervém com questionamentos sobre essa posição subjetiva e a paciente revela que se sente insegura, uma vez que sempre “é necessário”(sic) que a mãe “termine” (sic) as ações que ela começa, então não “finalizava nada”(sic).

 

No grupo de Culinária, que tinha como proposta a realização de uma receita de doce, com cada integrante do grupo sendo responsável por uma tarefa, como preparação dos ingredientes, organização da cozinha e execução da receita, a paciente fica responsável finalizar a receita no fogão, e durante a atividade a receita acaba dando “errado”. Sem conseguir realizá-la de forma satisfatória, chama a coordenadora do grupo para então “consertar” a receita, fazer por ela, “Deu errado, e agora? Me desculpe, não vou conseguir terminar, eu estraguei”(sic). Nesse momento, levando em conta o discurso que a paciente apresentava na relação com o Outro, pode-se dizer que, na transferência, a coordenadora do grupo é convocada a responder como a paciente supõe que a mãe sempre respondera. A coordenadora do grupo, então, decide manejar a transferência ao não responder à demanda deste lugar o qual é convocada, como a “mãe que faz tudo”. Resolve, por isso, acompanhar a paciente na condução da receita, sem assumir a autoria, mas ajudando-a a encontrar alternativas para finalizar a tarefa a partir das decisões que lhe fossem próprias.

 

 Lacan, em seu texto “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, ao discutir sobre a transferência, afirma que ela se torna essencial ao processo analítico, pois nela se atualizam as relações que o sujeito estabelece com o Outro, e também como o analista deve dirigir o tratamento a partir da estratégia de faltar, recuar a este lugar de poder que é convocado pela transferência.

 

Posteriormente, ainda no grupo de Reflexão, Camila relata que conseguiu fazer “uma tarde de guloseimas” (sic) para a família sem a ajuda da mãe, afirmando: “Me inspirei em você! Pensei que se consegui fazer aqui com você, eu conseguiria fazer sozinha em casa” (sic). A posição da analista, visando ser diferente daquela estabelecida com a mãe (Outro), pôde dar a possibilidade da paciente se permitir realizar uma ação de maneira independente. No grupo também a paciente se questionou sobre seu posicionamento subjetivo, na relação com a mãe e a dependência que se impunha nessa relação, com a ajuda dos outros membros, pode pensar na possibilidade de se posicionar de outra maneira, de “dar conta de sua própria vida” (sic).

 

Podemos observar a partir dessa vinheta, que há possibilidade de se manejar a transferência num contexto institucional. E também que tomar a transferência como estratégia de trabalho, na direção do tratamento, pode trazer efeitos analíticos muito importantes para a condução do caso. A partir da intervenção da analista na transferência, possibilitou à paciente uma diferença em seu posicionamento na relação com o Outro, e posteriormente, produziu um questionamento sobre sua posição subjetiva.

 

Darlene Ribeiro da Silva

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