• Isabela Ledo

Ensino e Psicanálise


A questão do ensino em psicanálise é fundamental na formação analítica, a qual pode ser pensada a partir de dois lugares: daquele que se coloca como “aprendiz” e daquele que se propõe a ensinar, a transmitir. É a partir da minha experiência de transitar entre estes dois lugares: como analista em formação nos diferentes dispositivos (supervisão, análise, seminários, redes de pesquisa, grupos de estudo), mas também do lugar de quem se propõe a transmitir ao supervisionar, dar aulas, coordenar grupos de estudos, que me proponho a refletir, neste texto, acerca das especificidades da relação entre Ensino e Psicanálise. Interessa-me argumentar a partir da premissa de que tais lugares enunciados não estabelecem entre si uma oposição ou, menos ainda, uma relação de complementariedade, mas se articulam e se enlaçam por uma mesma finalidade: a formação permanente de analista.


Lacan interroga-se sobre isso, no ano de 1957, em seu texto denominado “A psicanálise e seu ensino”: “o que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?” (p. 440). Questão formulada nestes termos pelo autor, mas já posta de outros modos anteriormente e respondida ao longo de muitos outros escritos no decorrer da sua experiência de ensino. Já temos aí uma pista fundamental, mas qual seria esta experiência que nos daria condições de extrair as especificidades desta relação entre Ensino e Psicanálise?


Neste sentido ao pensar de que ordem seria tal experiência, Freud nos ajuda a pensar já em 1926, no seu texto “Análise leiga”, ao dizer que dificilmente poder-se-ia ensinar psicanálise àquele que não tivesse passado pela experiência, mais especificamente, de analisante. – “Sei que não posso convencê-lo. Isto está além de qualquer possibilidade e, por esse motivo, além de minha finalidade (…) É somente no curso dessa 'autoanálise' (como é confusamente denominada), quando eles realmente têm a experiência de que sua própria pessoa é afetada – ou antes, sua própria mente – pelos processos afirmados pela análise, que adquirem as convicções pelas quais são ulteriormente orientados como analistas”.


Esses autores, ao proporem a inclusão daquilo que está além de um conhecimento teórico, racional, objetivo, promovem uma subversão à noção comum de ensino. Esta, de modo geral, está associada à instrução passada por alguém que sabe (“professor”) e que poderia ser compreendida objetivamente por aquele que se propõe a saber (“aluno”). Sabemos como é difícil subverter, no cotidiano, esta lógica pedagógica, sustentada por uma suposta transmissibilidade objetiva, ou seja, livre de uma subjetivação tanto do lado de quem ensina quanto daquele que aprende.


Os efeitos recolhidos no meu percurso de formação e na experiência de acompanhar aqueles que iniciam os seus estudos ratificam tal dificuldade. Não raro, sem se dar conta, em nome de uma expectativa de acesso objetivo ao ensino lacaniano, os desencontros na prática do estudo podem ser lidos como um fracasso, ora do lado do próprio Lacan – “ele não sabia escrever, não tinha didática, gostava de complicar” – ora do lado de quem o lê: “ainda não tenho condições de entender, preciso estudar mais, não sou inteligente o suficiente para entender...”.


Desencontros que também vivenciei ao ler Lacan, especialmente, no início da minha formação. Muitas vezes, era da ordem de um “quebra-(a)-cabeça” – um labirinto se abria: embaraços, interrogações, abismos, inquietações, ininteligibilidade. Com o passar do tempo, porém, fui me autorizando a entrar no jogo de outro modo. Menos orientada pelo resultado daquele, agora então, “quebra-cabeça”, pude ganhar gosto pela “montagem”, ao introduzir as peças da minha experiência clínica, chegando, assim, a dar formas e significações não adivinhadas aos conceitos teóricos. Caminho que me ensinou de um modo quase “didático”: não se tratava de coletar um conhecimento previamente dado no texto lacaniano, mas de produzir um saber singularizado a partir destes (des)encontros, apesar dos embaraços.


Um ensino em psicanálise se produz na medida em que podemos nos distanciar de uma lógica doutrinária, standartizada, na qual quem ensina tem o saber todo e oferece de forma complementar aquilo que “falta de saber” ao outro. A experiência clínica nos ensina que a falta de saber está para ambos os lados, de quem ensina e de quem apre(e)nde, sendo preciso se lançar rigorosamente ao trabalho e ao estudo dos dois lugares.


Neste sentido, pode-se dizer que a proposta lacaniana de ensino submete a formação analítica à própria estrutura do discurso analítico. O que isto quer dizer? Quando dirigimos um tratamento, e também na formação analítica, é preciso estar permanentemente orientado pela “descoberta freudiana”: o Inconsciente. Descoberta que nos aponta que o homem está fadado a estabelecer uma relação com o saber sempre incompleta, não-toda. Algo sempre resta na tentativa de apreensão. São nestes hiatos entre o que se diz e o que se quer dizer, o que se escuta, o que se ensina e o que se aprende que há espaço para o novo.


Lacan, durante muitos anos do seu ensino, tecia uma crítica aos “alunos” aplicados da teoria freudiana que, no afã de seguir os seus ensinamentos, esqueciam-se, justamente, daquilo que Freud tentou nos ensinar com a sua descoberta: teremos de nos virar com a impossibilidade de tudo saber. Orientado por esta advertência, Lacan denominou por “Retorno a Freud” grande parte do seu ensino, que indica não apenas um trabalho rigoroso a partir dos textos freudianos, ou menos ainda, uma busca por coletar ou reproduzir os conceitos freudianos. Lacan, pelo contrário, parece retornar ao que Freud não diz, no sentido de que faz deste retorno uma “viagem” para um “novo destino”, ao qual pôde articular sua própria invenção teórico-clínica.


A psicanálise nos ensina, assim, que transmitir, ensinar e também “apre(e)nder” só se torna possível se cada analista coloca algo de si e se compromete com um exercício de invenção nos nossos repetidos e inimitáveis retornos aos ensinos de Freud e de Lacan. Aos poucos, o encontro com a impossibilidade inerente ao ensino da psicanálise não precisa ser traduzida pelo engodo de um “fracasso pessoal”, mas lida como um convite ao trabalho que faz fracassar o ideal de um fechamento do saber.


Se é “isso” que a psicanálise nos ensina... como ensiná-lo? Com estilo, Lacan dizia sustentar o seu ensino da posição de analisante, com a aposta de que aquele que ensina é o primeiro a se formar, se reformar, se deformar... movimento que coloca o ensinante, ao mesmo tempo, diante da produção de um saber e diante da falta que lhe é inerente. Sendo assim, é a partir da experiência de analisante, ou seja, da decisão e disposição em fazer do Inconsciente uma escola, que se ensina e se apr(e)nde em psicanálise.


O nosso retorno diário ao ensino (e não exatamente aos autores) de Freud e Lacan, nos ensina sobre RESISTIR, com toda a ambiguidade, equívocos e atualidade que este termo parece aqui colocar em jogo. Se por um lado, parece haver resistência a seguir em frente ao defrontarmo-nos inevitavelmente com as dificuldades, com os entendimentos pela metade (no melhor dos casos) no ensino psicanalítico; por outro, resistamos, lutemos para nos opor à busca de uma transmissibilidade plena, objetiva, livre de uma subjetivação. Somente neste sentido, de resistir aos ideais, que podemos ensinar e apre(e)nder ao insistir em recolher permanentemente as ressonâncias deste dito lacaniano: “tal direção só se manterá através de um ensino verdadeiro, isto é, que não pára de se submeter ao que se chama novação” (Lacan, 1955/1998, p. 436).


Isabela Ledo



Indicações bibliográficas:


FREUD, S. (1926). A questão da análise leiga. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, s/d (versão eletrônica), v. XX.


LACAN, J. (1955). A coisa freudiana. In: Escritos. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.


LACAN, J. (1957a). A psicanálise e seu ensino. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

© 2018-2020 | Aprendimentos Clínicos | aprendimentosclinicos@gmail.com | São Paulo - Brasil