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A finalidade de uma análise


"Que fique claro para nós que, através da junção de predisposições inatas e influências durante os anos de infância, todas as pessoas adquiriram uma determinada idiossincrasia ao conduzirem sua vida amorosa, ou seja, daí vêm as condições que a pessoa estipula para o amor, as pulsões a satisfazer e as metas almejadas."


Sigmund Freud, Sobre a dinâmica da transferência [1]






Em linhas gerais, a finalidade da análise pode ser considerada como: levar o sujeito a ir além do discurso do Outro que o habita. Tomar a finalidade da análise nesta direção, nos coloca duas questões: o que compreendemos aqui como ‘discurso do Outro’? E, do que se trata, do ponto de vista teórico e clínico, ‘levar o sujeito a ir além deste discurso’?



O discurso do Outro



O sujeito é marcado pela relação que estabelece com o Outro – representado pelos pais e outros – já existente antes mesmo de sua concepção. Portanto, o ser humano é, por excelência, um ser social, não podendo ser reduzido às suas modalidades de sustentar uma relação com o outro e com os objetos a uma pura expressão subjetiva individual. Desde o seu texto “O estádio do espelho”, Lacan vai evidenciar o determinante papel do Outro na constituição do eu e do sujeito desejante numa mesma operação, deixando claro, inclusive, que a própria maturidade biológica atingida pelo bebê acontece na apreensão de si mesmo como um eu e como um corpo separado do outro. Isto resulta na produção de uma identidade, engendrada no cerne da relação com aqueles que a ele oferecem um cuidado [2].


Porém, em função do papel que o Outro ocupa para o sujeito, este estará para sempre marcado pelo seu discurso. É somente desde a tomada do bebê no discurso materno e paterno, e também social, que ele pode advir como sujeito. Ao mesmo tempo, é a partir destes discursos que produzem no sujeito marcas (conscientes e inconscientes) que se expressarão na forma de uma alienação, determinando as suas modalidades de se relacionar consigo e com os outros. Trata-se de uma espécie de decantação, no sujeito, de um discurso inconsciente que lhe submete sem que ele se dê conta de sua força e extensão. É na clínica, nos mais variados contextos (consultório, instituição, acompanhamento terapêutico), que o trabalho do analista torna-se o de destacar estas marcas e, consequentemente, permitir ao sujeito elaborar um saber sobre elas, pois, como afirma o psicanalista Mauro Mendes Dias, “quanto mais o sujeito está alienado no discurso que o constituiu, ou seja, da sua família ou de outros que o constituíram, menos ele se dá conta da nocividade das questões que ele porta” [3].


É o caso de um adolescente que se apresentava durante o atendimento psicanalítico como “depressivo”, assumindo tal lugar nas relações familiares e um entendimento consistente para o seu sofrimento como resultado da “depressão”. De maneira ilustrativa, este significante o marca desde a mais tenra idade, sendo diagnosticado e medicado como “depressivo”. Ou seja, desde que ele se recorda, era um “depressivo”. Resultado da sua relação com o discurso médico a partir da sustentação desta nomeação do sujeito e de seu sofrimento no âmbito familiar. Da medicação psicotrópica quando tinha cinco anos até, posteriormente, com quinze anos, somar-se aí o uso da cocaína para lidar com uma “angústia no peito”, vislumbrava-se um paciente que se sentia “impotente em lidar” com suas dificuldades.


Em suma, o que queremos dizer aqui como ‘discurso do Outro’: é o discurso familiar e social que são constituintes para o sujeito e que, concomitantemente, imprimem toda uma série de marcas a partir das quais o sujeito poderá submeter a sua existência, definindo quem ele é. Porém, o discurso do Outro não é “todo”, o que permite àquele que procura uma análise ir além deste discurso.



Para além do discurso do Outro



Qual seria a primeira atitude indicada a um analista quando alguém chega ao atendimento afirmando que tem depressão? Normalmente, ele dirá: “como assim, depressão?”. Pergunta aparentemente boba, mas que revela uma advertência metodológica do psicanalista em relação aos significados compartilhados por todos ou por um grupo. Não é que ele não saiba o que significa depressão de um ponto de vista médico, é que ele sabe que se de um ponto de vista social podemos compartilhar um mesmo significado em nossos diálogos, na relação analítica os significados devem ser questionados, pois depressão pode assumir, para cada sujeito, um sentido muito específico. Isso é seguir a recomendação de Lacan de que o analista deve se esquivar a uma compreensão muito rápida da fala do sujeito – “[...] umas das coisas que mais devemos evitar é compreender muito, compreender mais do que existe no discurso do sujeito” (p. 102) [4] – dando-lhe tempo e espaço para que ele possa dizer de seu próprio entendimento do que é depressão.


A suspensão de uma compreensão orientada pelos manuais diagnósticos ou pelo dicionário é sustentada pelo analista para que uma outra compreensão possa se realizar – uma ‘compreensão analítica’. Ela está intimamente ligada a possibilidade do psicanalista, a partir da fala do sujeito, destacar as marcas que o constituiu e que, em sua face dogmática, o submete, o assujeita.


No caso que apresento, o significante ‘depressão’ vai revelar toda uma forma de nomeação de uma ‘angústia’ sentida pelo adolescente desde a sua infância. Este significante tem a capacidade de impor ao sujeito uma única modalidade de tratamento de seu sofrimento. Eis a fórmula: se sou doente – depressivo – logo não tenho condições de lidar com isso a não ser pelo uso de remédios. A cocaína vem, posteriormente, como mais um “medicamento” para tamponar a angústia.


É somente por sustentar uma posição de ‘recusa de compreensão’ do que seria a depressão na relação com o adolescente que se pode fazer emergir um saber que está vedado ao sujeito se atentar. O adolescente desconhece o discurso do Outro que o habita, mas não por não portar um saber sobre si, mas porque este saber está amordaçado – os sintomas depressivos deste adolescente veiculavam uma “fala amordaçada” [5]. É como se esse saber, essa fala, estivesse engasgado na garganta do adolescente, pronto para ser pronunciado, mas só pode ser liberado no encontro com um outro que reconheça e dê um lugar ao seu sofrimento. É como Lacan afirma, o analista “[...] não tem de guiar o sujeito num Wissen, num saber, mas nas vias de acesso a esse saber” (p. 361).


Com isso, o sujeito poderá reconhecer que ser “depressivo” é um lugar que ele assumiu desde o discurso do Outro e que ele pode muito bem se questionar, no cerne da experiência analítica, se vai continuar ou não acatando esse discurso e se sustentando ou não a partir deste lugar. Segundo Mauro Mendes Dias, este momento é bastante delicado para o sujeito, pois é onde ele “se vê numa espécie de bifurcação em que ele vai precisar decidir se ele vai continuar sustentando essa via em que ele reconhece que o assujeitou [...] ou se ele vai caminhar numa outra direção em que ele vai abdicar disso e, consequentemente, vai ter que abdicar de uma forma de ser amado” [6].


Vemos aqui que o ‘para além do discurso do Outro’ implica um movimento em duas vertentes: (1) reconhecer este discurso e seus imperativos e (2) decidir-se a abdicar ao assujeitamento que eles engendram. Acontece que são movimentos complexos, especialmente, o segundo, pois necessita que o sujeito esteja disposto a abrir mão da modalidade de laço amoroso que obtém desde o lugar que se submete ao discurso do Outro. Se o lugar de “depressivo” aponta para um lugar de impotência para o sujeito também é o lugar a partir do qual ele sustenta suas relações familiares: “é quando eu fico deprimido que a minha mãe me abraça e eu me sinto bem”, diz o sujeito. Trata-se de abdicar do lugar de “depressivo”, mas também do amor que este lugar parece garantir.


Propomos que a finalidade da análise é levar o sujeito para além do discurso do Outro que o habita e que lhe assujeita, tornando-se uma espécie de bússola que norteia os seus pensamentos e as suas atitudes. Como resultado, podemos esperar que o sujeito possa experienciar um questionamento deste discurso e de seus imperativos.


Durante a análise, a ‘depressão’ do adolescente se foi, levando-o a solicitar a retirada de todas as medicações psiquiátricas: “eu descobri que não tenho depressão; descobri que o que eu tenho é tristeza, às vezes fico triste”. E daí em diante, passou a não sentir mais necessidade de se colocar como ‘depressivo’, assumindo um outro lugar no jugo das relações familiares: “eu falei para a minha mãe que eu não quero mais usar cocaína, mas quero continuar fumando cigarro e quero trabalhar; falei que não preciso mais dos remédios porque não tenho mais depressão”.


Gabriel Bartolomeu


REFERÊNCIAS


[1] FREUD, Sigmund. Sobre a dinâmica da transferência. In:______. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.


[2] LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu. In:______. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 96-103.


[3] DIAS, Mauro Mendes. Uma abordagem pela voz e pela música das populações ligadas ao crack. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=w7XfmBIas0w>. Acesso em: 15 out. 2018.


[4] LACAN, J. A tópica do imaginário. In:______. O Seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud, 1953-1954. 2 ed. Rio de Janeiro Zahar: 2009. p. 101-121.


[5] Aqui tomamos emprestada a afirmação lacaniana: “Afinal de contas, a noção que temos do neurótico é que em seus próprios sintomas jaz uma fala amordaçada [...]” (p. 27). LACAN, J. O simbólico, o imaginário e o real. In:______. Nomes-do-pai. Rio de Janeiro: Zahar, 2005. p. 9-53.


[6] Idem DIAS, Mauro Mendes.

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