O violento e o trágico: uma reflexão sobre os fenômenos violentos recentes a partir da ética da psicanálise

A ascensão da extrema direita no Brasil explícita no resultado das eleições em 2018, trouxeram a baila o debate sobre a violência com ataques cada vez mais recorrentes em manifestações política ou contra grupos minoritários. Os discursos de ódio saíram das redes sociais e tomaram as ruas em diversas manifestações violentas que levaram inclusive a terríveis resultados, como a morte do ativista político e capoeirista Moa do Katendê na Bahia[1]. Entre os diversos efeitos dessa violência, observa-se a reprodução cada vez mais recorrente de conteúdos e notícias sobre a violência, principalmente nas redes sociais.

 

Longe de ignorar a gravidade dessa problemática e os efeitos reais dessa violência, o objetivo desse texto é conduzir uma reflexão no interior da psicanálise que nos auxilie a compreender um dos efeitos subjetivos da reprodução e replicação de conteúdos e notícias sobre os ataques violentos e a sua incidência sobre a necessidade de organização e mobilização social. Partimos da hipótese de que o olhar sobre as cenas de violência tende a nos levar a uma paralisia e uma posição de gozo em que podemos nos ver incapazes de reagir diante do horror. Propomos uma retomada da noção de tragédia na psicanálise como aquilo que pode garantir o estatuto da violência como quebra do pacto social e ao mesmo tempo nos remover da paralisia que pode ser inerente a cena violenta.

 

A perseguição explícita a desafetos políticos e as variadas formas de ativismo pode ser considerada um dos principais indícios da ascensão de regimes de exceção política, como foram o fascismo e o nazismo. No Brasil, a violência política não é recente: mesmo após a reabertura democrática, muitos militantes e ativistas políticos de oposição são perseguidos e mortos, como o caso recente da vereadora Marielle Franco, no ínicio de 2018[2].

 

O que parece é que esse regime tem como um dos seus pilares o monopólio do horror e da violência. No fascismo italiano, por exemplo, os filmes de terror eram proibidos. Havia uma negação da violência pelo próprio governo que era um algoz de seus opositores, praticando torturas e formas terríveis de perseguição que tinham entre seus efeitos, a tentativa de emudecimento das mais diversas formas de resistência. Contudo, se esses regimes tiveram seu fim, é porque foi possível romper o monopólio da violência e o uso articulado de forças que puderam antagonizar esses efeitos.

 

A morte do capoeirista Moá do Katendê logo após o segundo turno das eleições marca o horror da campanha que vinha sendo feita nas ruas. Enquanto isso, o candidato em nome de quem muitos dos ataques eram feitos preferiu a negação da violência: diz que não é possível controlar seus eleitores, sem nem mesmo se preocupar em pedir que os ataques cessassem. Até o fim do segundo turno, foram registrados mais de 50 ataques violentos contra grupos minoritários e ativistas políticos da oposição[3].

 

Essa gama de ataques pode fazer supor que a vitória do candidato ratifica a violência. Não podemos negar que em certa medida, muitos dos seus seguidores ainda se sentem à vontade para fazê-los. Contudo, sabemos também que observamos um incremento de ataques que já ocorriam principalmente contra grupos minoritários. O que parece recente é que, esses números alarmantes passaram a ser reproduzidos sistematicamente nas redes sociais criando uma sensação de próxima vítima naqueles que parecem estar na mira da escalada fascista. Nesse sentido, um novo “monopólio do horror” pode calar as militâncias e fazer com que, individualmente, as pessoas sintam-se ainda mais perseguidas.

 

A reprodução sobre a violência perpetrada parece produzir, portanto, um certo engodo que vai na contramão daquilo que parece visar – que seria a produção de resistências e de estratégias de autoproteção. O que vemos com cada vez mais frequência é a demonstração do horror como coisa iminente – uma violência que virtualmente atinge todas as pessoas.

 

Esse engodo é justamente o efeito subjetivo que a psicanálise pode nos auxiliar a compreender: um certo fascínio pela violência que nos paralisa.

 

A violência na psicanálise

 

No texto do mal-estar na civilização, Freud parte da hipótese de que haveria em nós um impulso a agressividade e a destruição do outro, que se encontra barrado pela entrada na cultura. A partir de uma leitura econômica do psiquismo, o autor defende que temos em nós pulsões sádicas que entram em jogo cada vez que o “Eu” parece ameaçado em seu narcisismo. Como o imperativo civilizatório tem por mandamento o “não matarás”, opera sobre o sadismo a repressão, colocando como substituto o seu avesso – o masoquismo, que seria o retorno do sadismo sobre o próprio eu. Entre o desejo de violentar e de ser violentado, sustenta-se aí o jogo das pulsões sado-masoquistas que organizam a economia psíquica.

 

Interessa nessa compreensão que uma das fontes do mal-estar na cultura é a impossibilidade da violência total sobre o outro. Com isso, a racionalidade freudiana situa o fenômeno violento não como algo inerente ao sujeito humano, mas como um produto da própria vida civilizada, que ao mesmo tempo, não pode ser eliminada. O negativo da violência não seria a não-violência, mas sim a vida na cultura, onde essas pulsões equilibram-se em nome da entrada na linguagem.

           

No Seminário 7 de Jacques Lacan, A ética da psicanálise, o mal-estar na civilização é objeto de análise do autor em suas implicações éticas a partir dos impasses sobre o bem do outro.

 

Se para Freud a entrada na cultura depende do recalcamento da pulsão de morte que visa destruir o outro que é identificado como ameaça do narcisismo primário, em Lacan essa proposição é analisada a partir da impossibilidade de fazer o bem, uma vez que o investimento sobre o outro sempre virá carregado de sua parcela dessa pulsão de morte.

 

Nesse sentido, a violência é algo inerente a vida na cultura, de modo que o outro é aquilo que parece impedir o meu acesso ao bem. Se o bem torna-se inacessível em sua materialidade, a vida na cultura trará em seu bojo sempre o seu aspecto trágico: o de que o outro além de não garantir a minha felicidade, será sempre um obstáculo ao meu acesso total ao bem. O aspecto trágico da cultura, portanto, é sustentar o pacto civilizatório em nome de um bem em que não é preciso destruir o outro.

 

A partir dessa compreensão preliminar sobre a violência na psicanálise, vemos que simplesmente não é possível eliminá-la da cultura. A concepção asséptica é justamente o que leva os regimes fascistas ao poder: a suposição de que determinado grupo ou determinada ideologia é que impede o acesso ao bem comum, colocando no horizonte de possibilidade uma certa “terra prometida” – nunca vista e nunca alcançada.

 

Esse aspecto esteve presente constantemente na campanha do candidato eleito: a promessa de limpar o país da corrupção numa assepsia do Partido dos Trabalhadores como fonte única do mal-estar na política. Esse engodo pareceu autorizar a “suspensão” do pacto civilizatório em nome do próprio pacto: para bem viver, é preciso destruir o outro que impede o acesso a felicidade. A negação do trágico, explicitou as reações violentas que assistimos.

 

Compreendemos aqui, a partir de uma leitura possível, a eclosão da violência no país durante a campanha presidencial, mas como essa negação do trágico nos ajuda a compreender o efeito de paralisia que a violência pode produzir em nós?

 

A violência versus a dimensão trágica

 

A negação do trágico produz uma ruptura em relação a violência separando-os entre nós e eles – nós pacifistas, que optamos pelas flores – e eles, que optaram pelos canhões. Ou seja, a negação do trágico faz com que não reconheçamos a violência como um elemento fundante do pacto social e nos coloque em uma posição em que só é possível assistir a violência, afinal, são eles que detém o seu monopólio.

 

Nesse sentido, para que as notícias de violência não nos paralisem é preciso restituir o aspecto trágico do social, negando a possibilidade de acesso ao bem conforme a extrema direita tem pregado: é preciso reconhecer estratégias que sejam capazes de incluir o que Lacan denominou como aspecto central da tragédia – o desejo.

 

O estatuto da tragédia é retomado por Lacan a partir da Antígona de Sófocles – a peça que trata da filha de Édipo que é condenada a ser enterrada viva em uma caverna por ter desobedecido um mandamento do Rei Creonte, que era o de não poder enterrar seu irmão morto.

 

O que Lacan localiza como o aspecto trágico é que Antígona, ante a morte iminente, não cede do seu desejo de ter enterrado o irmão morto. Há algo interessante na própria cena: durante toda a tragédia grega há o Coro, que são as vozes que dão o aspecto emocional e afetivo da peça. Lacan nos mostra que o Coro são aqueles que “sentem por nós” na peça, que dão o tom afetivo das cenas.

 

No momento da condenação de Antígona em que ela será sepultada em sua caverna, o Coro se cala e apenas ela é quem fala. É a própria Antígona que oferece ao espectador a dimensão afetiva da cena em questão. Com isso Lacan nos oferece a proposição que considera como aquilo da ética que a psicanálise nos oferece: de que não devemos ceder do nosso desejo.

 

“Transposto esse limite [o de ceder do seu desejo], em que com um termo vinculei para vocês o desprezo pelo outro e por si mesmo, não há retorno” (LACAN, 1969/2008, p. 375). Nesse sentido, ceder de seu desejo é desprezar o outro, ou seja, é desprezar a dimensão trágica da existência que ao mesmo tempo, demonstra a impossibilidade do acesso total ao bem individual e remete a necessidade de dele abrir mão em nome da vida na cultura.

 

A reflexão psicanalítica nos auxilia, portanto, a compreender que as resistências não podem se organizar em torno do mesmo imperativo de negação do aspecto trágico, prometendo o acesso ao bem, mas como um antídoto para o mal, restitui a violência como quebra do pacto social e não como uma dominação do indivíduo, que a partir da dimensão desejante posta por Lacan, nos retira da posição de objeto puro da violência do outro.

  

Resistir a violência, portanto, é restituí-la na sua dimensão estrutural e como parte fundante do pacto social. A negação da violência é o que a faz parecer monopólio dos regimes de exceção e que exerce controle imaginário sobre os indivíduos, nos fazendo supor que só existe um lado violento. A partir disso, depreende-se uma nova questão: a violência deve ser um elemento a ser incluído no discurso da resistência a partir de uma dimensão trágica, que considere o outro e sustente o pacto social?

 

A partir da ética da psicanálise, podemos tomar essa questão como novo ponto de partida.

 

 

Christopher Rodrigues Anunciação

 

 

[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/mestre-de-capoeira-e-morto-com-facadas-apos-discussao-politica-na-bahia.shtml

 

[2] https://brasil.elpais.com/tag/caso_marielle_franco

 

[3] https://exame.abril.com.br/brasil/apoiadores-de-bolsonaro-realizaram-pelo-menos-50-ataques-em-todo-o-pais/

 

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