O manejo clínico do psicanalista

December 19, 2018

As asas não se concretizam.

Terríveis e pequenas circunstâncias
Transformam claridades, asas, grito,
Em labirinto de exígua ressonância.


Os solilóquios do amor não se eternizam. 

 E no entanto, refaço minhas asas
 Cada dia. E no entanto, invento amor 
 Como as crianças inventam alegria. 
 
(Hilda Hist, De amor tenho vivido - 50 poemas) 

 

 

Gostaria de discutir sobre um aspecto da clínica que me parece importante afim de refletirmos sobre o lugar do psicanalista e seu manejo clínico.

 

Durante o processo de análise, a realidade do discurso dos pacientes vai se transformando ao longo das sessões. A mesma história, versões diferentes – os personagens vão ganhando outras roupagens, os protagonistas mudam, os acentos se deslocam.

           

Contarei um pequeno conto que nos auxiliará nesta reflexão acerca do manejo clínico do psicanalista. Retomarei aqui alguns eixos importantes da teoria psicanalítica abordada por Lacan, principalmente advertências que ele construiu ao longo de seu ensino, dirigidas aos próprios psicanalistas, tendo como objetivo final pensarmos o que o psicanalista escuta, ao ouvir os discursos de seus pacientes.

           

Vou começar com o pequeno conto:

           

Um pai tem três filhas: Ana, a mais velha; Maria, a do meio; Clara, a mais nova. Toda segunda-feira, a cada semana, ele pede para uma das filhas acordar mais cedo e pegar o pão quentinho na padaria. Diante da mesma demanda do pai (pegue o pão na padaria), cada filha interpreta esse pedido de uma forma, e responde a isso de forma bem particular.

           

Ana toma esse pedido como uma prova de amor do pai, considerando-se a mais amada diante das três. Ela vai toda animada pegar o pão na padaria – compra o pão, e mais uns docinhos para agradar o pai. Chegando em casa, se lembra que não comprou o suco que o pai mais gosta, sentindo-se culpada por isso.

           

Maria toma esse pedido do pai como uma punição, afinal para ela, seu pai a quer mais responsável diante dos compromissos. Pega o pão errado, e se atrasa para chegar em casa. 

 

Já Clara toma esse pedido como outro qualquer. Acorda, pega o pão na padaria e o deixa em sua casa. Sai às pressas para sua escola, toda animada, pois lá, vai encontrar sua paquera.

           

Como podem notar, diante da mesma demanda do pai, cada filha lê essa demanda de forma diferente e mais, as respostas também se diferem entre si.

           

Lacan faz seu retorno à Freud afim de relembrar para os próprios psicanalistas, a prática clínica da experiência Freudiana, já que havia constatado um sério desvio de alguns profissionais em relação a mesma. Logo em seu primeiro seminário, Lacan retoma Freud relembrando o que de fato importa quando o paciente está contando sua história em uma análise:       


"Pôde-se dizer que aí Freud chega (...) a uma noção que emergia ao longo dos encontros que tivemos no último trimestre, e que é mais ou menos esta - o fato de que o sujeito revive, rememora, no sentido intuitivo da palavra, os eventos formadores da sua existência, não é, em si mesmo, tão importante. O que conta é o que ele disso reconstrói". (LACAN 1953-54/1986, P.23)

           

O principal aqui não é tanto o fato do sujeito relembrar os fatos de sua história e contá-los na sessão, mas sim o enfoque está na reconstrução da história de seu passado, historiada no presente. Lacan continua:

 

“(...)O revivido exato – que o sujeito se lembre de algo como sendo verdadeiramente dele como tendo sido verdadeiramente vivido, que se comunique com ele, que o adote – temos nos textos de Freud a mais formal indicação de que não é o essencial. O essencial é a reconstrução, é o termo que ele emprega até o fim”. (LACAN, 1953-54/1986, p.24 )

 

Faz-se necessário, entretanto, pensar sobre o manejo clínico do psicanalista diante dessas histórias que os pacientes contam no divã, relembrando algumas advertências das quais Lacan insiste sublinhar aos próprios psicanalistas. Michele Roman Faria, na Apresentação do livro Psicanalista, adverte de que tanto a compreensão da teoria psicanalítica como o manejo da clínica não estão imunes aos efeitos problemáticos do imaginário e da ilusão de compreensão que lhe é própria.

 

No seminário 2, Lacan afirma:

 

“Há dois perigos em tudo que tange à compreensão de nosso campo clínico. O primeiro, é não ser suficientemente curioso (...) O segundo é compreender. Compreendemos sempre demais, especialmente na análise”. ( LACAN, 1954-55/1985, p 135)

 

Nesse sentido, o que seriam esses efeitos problemáticos do imaginário e da ilusão de compreensão que lhe é própria?

 

Vamos tomar a exemplo Maria, a personagem de nosso conto, a filha do meio. Supondo que Maria iniciasse uma análise e dissesse ao analista: “Meu pai só me critica, me acha irresponsável e o tempo todo me pune por isso”.

           

Vejamos aqui, o que seria o analista incorrer no erro do imaginário e ser tomado por sua compreensão? Seria justamente tomar a versão contada por Maria como sendo a sua própria realidade – isto é, que seu pai, de fato, a ache irresponsável. Nessa direção, seria, portanto, compreender o dito rápido demais, sem investigar nosso objeto de estudo – o inconsciente.

           

Nesse contexto, que o tal discurso de Maria seja sua realidade psíquica naquele momento, sem dúvida alguma. Porém, o analista, ao tomar o que o paciente narra como sendo uma realidade factual, e não como uma das formas possíveis de interpretar os fatos, é resistir à própria noção do inconsciente, comprometendo o exercício de sua função que é apontar e localizar a posição subjetiva daquele sujeito.

           

Assim, não se deve nunca compreender rápido demais, muito pelo contrário, como nos indica Lacan já em seu seminário 1, dizendo que é necessário inclusive uma certa recusa de compreensão, para haver uma compreensão analítica. Recusando a compreensão rápida dos fatos, mas sem desconsiderá-los evidentemente, investigaremos outro aspecto, qual seja ele: como o paciente lida com aquilo que acontece com ele.

           

O sujeito faz sintomas para atender às determinações desse Outro, evidenciando sua posição subjetiva frente ao que o determina, no campo do Grande Outro da linguagem. Nessa via, trabalha-se em uma análise com vários elementos para apontar a posição subjetiva daquele que nos vem falar. Para isso, basta dar uma olhadinha no Grapho do desejo de Lacan, para relembrarmos de que se trata o desejo inconsciente de um sujeito neurótico – muitos elementos envolvidos, muitas relações entre eles. Não é simples o que está em jogo, mas Lacan vai nos advertindo em vários momentos da importância em termos um rigor técnico para nossa escuta e uma direção de tratamento como norte.

           

Destaco a seguir um trecho do texto de Beatriz Oliveira intitulado “Se há do analista, há real”, apresentado no X Encontro Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano IF-EPFCL - “Adventos do Real e o psicanalista”. Barcelona, 2018:
           

“Em 75, Lacan dirá: “só existe criação, cada vez que avançamos uma palavra, fazemos surgir do nada, uma coisa; é nossa maneira de ser humanos”.  (LACAN, 1975, p119). Neste comentário, está claro que a palavra cria a Coisa, seu furo, a partir de um vazio, nomeando-a, atribuindo àquilo que era nada, um traço que faz furo, nomeação. Nomear o vazio é causa de todo falasser, núcleo da experiência psicanalítica. Assim, se entendemos que o furo da estrutura é causa do ser falante, o psiquismo é necessariamente fruto disso: da violência do (des)encontro com a linguagem. Como diz Lacan, nosso modo de sermos humanos é fazer uma coisa surgir do nada pela palavra”.

 

Na clínica trabalhamos com ditos, palavras, fonemas, sons que enodam e desenodam sintomas e fantasias. É esse o material com que fazemos cortes, desconstruções e novas amarrações, buscando cavar o furo para que um Real possa ex-sistir como causa.

 

Para concluir, ao investigar a posição subjetiva de nosso paciente frente ao campo desse Grande Outro de linguagem, na posição de agentes, vamos supondo um saber possível do lado do sujeito, apostando nele como capaz de saber mais sobre si, sobre sua posição em relação às demandas desse Outro. De fato, não nos interessa muito o que esse outro fez ou não fez, até porque sabemos que esse Grande Outro é uma construção do sujeito. Interessa-nos investigar o que o nosso paciente fez, com que ele supôs, que esse outro lhe fez. Ao apontar tal lógica discursiva, faz-se possível uma invenção de um saber ainda não sabido, produz-se novas nomeações e uma nova posição diante desse Grande Outro de linguagem.

 

Carolina Ribeiro

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