Sobre o início do tratamento: a relação analítica em questão

February 19, 2019

Freud em seu texto “Sobre o início do tratamento” (1913), afirma que em alguns aspectos a análise se relaciona com o jogo de xadrez. Afirma que no xadrez as únicas jogadas que poderiam ser devidamente representadas seriam as jogadas de abertura e as finais, já que depois de iniciada a partida, as diversas possibilidades de jogo impediriam uma representação e se tornaria exaustivo tentar abarcar todas. Com isso, aponta uma semelhança com o processo analítico, já que não se pode representar cada intervenção de cada caso, uma vez que a singularidade está em jogo em nosso ofício, o autor marca algumas recomendações sobre as jogadas de abertura, que podem então promover um espaço de escuta. 

 

Nessa esteira, Freud, tem como objetivo pensar táticas, não fixar regras, que possam proporcionar um processo de análise, algo que possa direcionar o tratamento, o posicionamento do analista.  Aponta a importância dos primeiros atendimentos, como ensaio da análise, do diagnóstico diferencial, estabelecimento do tempo de sessão, da constância dos encontros, do pagamento, da relação transferencial com o paciente, como pontos importantes para a condução à relação analítica.

 

Lacan ao fazer seu retorno a Freud, reafirma em seu ensino a importância do analista conduzir a direção do tratamento, e ao longo de sua obra vai definindo um lugar que o analista deve ocupar e a especificidade da experiência da análise. Em seu seminário 3 “As Psicoses” (1955-56) afirma sobre a análise:

 

“É uma experiência realmente estruturada por algo de artificial, que é a relação analítica, tal como é constituída pela confissão que o sujeito vem fazer ao médico, e pelo que o médico dela faz. É a partir desse modo operatório primeiro que tudo se elabora.” (p.17)

 

Lacan ao nomear como relação artificial, aponta para a importância da criação dessa relação como um processo, que não se estabelece espontaneamente, só é possível a partir das operações que o analista executa a fala que se apresenta. Nesse ponto, podemos traçar uma diferença entre o jogo de xadrez e a análise.

 

No xadrez, os jogadores entram em uma partida minimamente sabendo o que devem desempenhar, já na análise, não se pode supor o mesmo.  Mesmo que seja um estudante da Psicanálise, não saberá até viver essa experiência, Freud nos alerta em suas recomendações.

 

Só comunicar que utilizamos a técnica psicanalítica não garante que vá acontecer esse movimento, então precisamos introduzir no jogo as intervenções que possam apontar para esse horizonte, a fim de possibilitar a transformação do relato baseado na comunicação de fatos, para uma fala que possa movimentar os conteúdos subjetivos do analisando. Então como pensar o processo de construção dessa relação analítica?

 

Na experiência clínica podemos observar que a cada caso o paciente chega de uma forma diferente, com motivações e demandas diversas e que temos que apresentar nesse processo o que será esse espaço de escuta e conduzir a análise. Nesse momento, as jogadas são do analista. Não quer dizer que temos que fazer algo mecânico para garantir que entre em análise, um passo a passo para que a relação se estabeleça, mas é preciso que nossas jogadas criem as possibilidades para que o outro lado do tabuleiro, possa se articular para entrar no jogo.

 

É preciso introduzir, com a intervenções, a lógica psicanalítica ao analisando, criar uma relação que possa movimentar os conteúdos subjetivos. Lacan nos dá pistas sobre esse movimento, ainda no seminário 3, ao fundamentar sua crítica ao método de diagnóstico da psiquiatria. Conta que esse método se amparava totalmente na relação de compreensão, ou seja, uma noção baseada na afirmação que há coisas no mundo que podem ser evidentes. Ao passo que, o psiquiatra conseguiria estabelecer o diagnóstico ao observar os fenômenos por si só, e que esses fenômenos provariam a evidência da doença e assim ele compreenderia o que estava acontecendo com o paciente.

 

Afirma que o que é compreensível “é uma pura miragem” (p.14), que quando se sustenta na compreensão, se afasta da escuta do sujeito. Dá um exemplo bem simples sobre essa noção de compreensão, de uma fala comum que observou nas salas de plantão: “O sujeito quis dizer isso.” (p.32). Nessa conclusão o médico se precipita para satisfazer o caso com uma compreensão, e falha na interpretação que poderia fazer ou não de acordo com os conteúdos que o paciente traz, pois fala e interpreta pelo paciente. Ainda mais, não abre o jogo para que o paciente possa elaborar uma questão sobre o que diz, porque o médico já lhe deu uma resposta.

Lacan afirma sobre a compreensão:

 

“Esta observação que eu lhes fiz da ultima vez, segundo a qual o compreensível é um termo sempre fugidio, inapreensível, é surpreendente que ela nunca seja pesada como uma lição primordial, uma formulação indispensável para aceder a clínica. Comecem por não crer que vocês compreendem. Partam da ideia do mal-entendido fundamental.” (p.31)

 

Assim, as intervenções do analista devem ir na direção da desconstrução dos discursos e compreensões prévias.  Encontrar na narrativa consciente e ordenada o que não está ordenado, o que “manca” no discurso, o que não se compreende. A partir daí, a escuta vai acontecendo na dúvida, nos lapsos, atos falhos, na descontinuidade, abrindo possibilidade para que possa associar livremente sobre o encadeamento de suas ideias e entrar no jogo, se implicar no que diz.

 

Lacan em seu seminário 11 “Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise” (1964), afirma que o analista trabalha com os tropeços do analisando, ou seja, não o que ele explica, o que tem compreendido, mas o que toca o discurso no mal-entendido. Nesse momento é que teremos a chance de acessar o sujeito, que aparece nos entremeios da estrutura de linguagem, entre um significante e outro.

 

Se posicionar na contramão da compreensão, então, se torna essencial para a estruturação da relação analítica. Ao estabelecer a possibilidade de não entender totalmente o que o analisando apresenta em sua fala, o analista abre a possibilidade da construção pelo analisando de uma verdade sobre si mesmo, e posteriormente de elaboração de novas jogadas diante de sua realidade psíquica, da forma que maneja sua realidade, possibilitando novos posicionamentos em sua lógica singular.

 

Darlene Ribeiro da Silva

 

 

Referências Bibliográficas

 

FREUD, S. O início do tratamento (1913). São Paulo: Companhia da Letras, 2010.

 

LACAN, J. Seminário 3, As Psicoses (1955-56).Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

 

LACAN, J.Seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais (1964).Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

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