• Isabela Ledo

Transferência: da resistência à causa do desejo


A transferência, conceito teórico-clínico tão caro à direção de um tratamento analítico, logo no início da obra freudiana, esteve vinculado ao conceito de resistência. Se a transferência pôde ser descoberta, posteriormente, como o motor de uma análise e a resistência é aquilo que se apresenta, desde o princípio, como um obstáculo à continuidade do tratamento, como concebe-las enquanto faces da mesma moeda, conforme posto por Freud? Em outras palavras, como entender por que a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento.


O fato da transferência não ser tomada mais como obstáculo ao tratamento, como de início, não significa que ela perca sua relação com a resistência. Os embaraços colocados pela relação transferencial no cotidiano da clínica são indicativos disto. É preciso lembrar que a transferência se faz obstáculo ou meio de trabalho a depender também de como o analista se servirá dela, mas não só. Sendo assim, retomar a pergunta freudiana do porquê a transferência aparece como resistência parece um primeiro passo importante para se chegar ao um outro passo, que também muito interessa a este texto: como o analista pode se servir deste operador clínico para dirigir um tratamento.


Freud (1916/1917) em uma das suas conferências introdutórias, intitulada Resistência e Repressão, destaca que quando assumida a tarefa de recuperar um paciente, aliviando-o dos sintomas da sua neurose, este enfrentava o analista com uma resistência intensa e persistente que se prolongava por toda a duração do tratamento. Dentre os distintos modos de manifestação da resistência, o autor vai se dando conta que a transferência torna-se um meio privilegiado. A questão, no entanto, não seria a transferência em si, mas a própria neurose.


Freud (1912) dizia que se a necessidade que alguém tem de amor não é inteiramente satisfeita pela realidade (e nunca o é), ela está fadada a aproximar-se de cada nova pessoa para tentar realizar isto que suspostamente existiu, mas agora falta. Cada um possuiria uma espécie de “clichês estereotípicos”, que se repetem de forma constante e reaparece ao longo da vida. Sendo assim, na relação com o analista, para que se instaure o que Freud nomeou como “neurose de transferência” é preciso que o analista seja incluído nessa “série” psíquica, nestes estereótipos, sendo tomado deste lugar de quem porta o “objeto de amor”. Este amor que se repete na relação com o analista estaria a serviço da resistência na medida em que impediria o trabalho de recordar. No entanto, poderia se tornar um motor do tratamento na medida em que apontaria o caminho “familiar” do modo de relação daquele sujeito.


Lacan (1960/1961) também encontra no “amor” um meio para desenvolver a sua leitura sobre a transferência. No seu seminário 8, dedicado ao tema da transferência, o autor encontrará na obra de Platão, O Banquete, um suporte para pensar no amor transferencial. Toma, por isso, o par amante e amado, o qual fundaria, ilusoriamente, uma lógica de complementariedade para pensar na neurose de transferência. O amante, precisaria estar no lugar de faltante, logo desejante, para buscar no amado aquilo que poderia completar o que lhe falta. A questão é que para ambos os lados parece haver um “não-saber” em jogo. O amante, apesar de supor o que lhe falta ao amado, não sabe exatamente o que seria este “ágalma” (objeto precioso) que lhe falta. Por outro lado, o amado saberia que a ele é suposta a resposta, mas não sabe exatamente o que tem para dar conta de responder ao desejo do seu amante.


Tomando esta analogia para a análise, desenvolvida por Lacan (1960/1961), inicialmente, no seminário 8 e, mais adiante, em 1964, avança no seu seminário 11, poderíamos pensar que este não-saber aí em jogo é o apontamento de como o Inconsciente se manifesta para ambos – analisante (“amante”) e analista (“amado”). A questão é entender, primeiramente, o que o analisante faz diante deste não-saber ou melhor deste desencontro entre o que ele busca e o que ele encontra no que o outro tem para dar. É importante dizer que há sempre um desajuste aí: há um abismo entre o que falta a um sujeito e aquilo que se apresenta enquanto objeto na realidade para dar conta disto. Não há conjunção entre desejo e seu objeto. Sendo assim, para Lacan, o Amor viria como uma resposta, uma significação para “disfarçar” este desencontro. Na análise, assim, um analisante, ao reconhecer que algo lhe falta – quem eu sou? O que eu quero? – supõe que esta resposta está alhures e o analista torna-se este “lugar” de endereçamento, este “destinatário” desta demanda amorosa, e então, o suposto portador deste “objeto precioso”.


A transferência amorosa, assim, em termos lacanianos, torna-se meio de resistência na medida em que é a via que o neurótico tem para convocar o Outro nesta parceria amorosa, ignorando um saber sobre a castração. Dito de outro modo, o neurótico coloca o seu amor e a sua demanda de um objeto que possa completar o que supostamente lhe falta, para não saber, justamente, da impossibilidade de se obter um objeto capaz de tamponar, responder ou dar a última palavra sobre o enigma do seu ser. O neurótico não quer saber que isto que ele demanda que venha pronto do Outro, se produzirá de modo sempre substitutivo, parcial a partir das saídas que ele próprio poderá inventar nas suas relações.


Há uma crônica de Clarice Lispector em seu livro a Descoberta do Mundo, chamada “Medo da eternidade” que pode ser aqui tomada como uma metáfora para se pensar no que fora teorizado acerca do encontro sempre faltoso com o objeto por meio das nossas relações. Trata-se da história de uma menina que relata seu encontro “aflitivo e dramático” com a eternidade. Em uma cena cotidiana, a caminho da escola, ela conta que nunca havia provado “chicles”, uma espécie de bala ou bombom cobiçado, do qual pouco se sabia a respeito. Afinal, passado algum tempo, sua irmã junta um dinheiro, compra o chicles e entrega à menina dizendo-lhe: “Tome cuidado para não perder, porque esta bala nunca se acaba. Dura a vida inteira”. A menina ficara perplexa: “Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível, do qual já começara a me dar conta”.


Ora, não parece ser desta ordem a busca dos nossos pacientes no cotidiano da clínica? Cada um a seu modo, reveste esta demanda de amor, que aparece sob diversas formas – ora saber sobre o que garante a duração de uma relação amorosa, ora sobre o que o faria ser bom, permanecer num emprego, ora sobre o tratamento que possa retirar todo o seu mal-estar. Com Lacan (, aprendemos assim, que este amor do analisante é dirigido ao saber, e não à pessoa do analista. O analista pode ser tomado amado porque suponho que você sabe sobre mim ou porque suponho que você tem o que procuro. Neste sentido, é que Lacan (1964) poderá formalizar o lugar do analista na transferência como “Sujeito Suposto Saber”, isto é, tornar-se o destinatário privilegiado de todas estas demandas, o “suposto saber” sobre a castração, sobre este objeto que completaria.


Freud (1917) dizia que o paciente demandava avidamente para que, muitas vezes, o analista o instruísse, o ensinasse de modo que pudesse adquirir mais conhecimento sobre isto que, supostamente, lhe falta. No entanto, para o autor, o paciente estaria muito disposto a se tornar um adepto da psicanálise, “com a condição que a análise poupe a sua pessoa”. Desde que ele não precise se a ver com a castração, desde que ele não se dê conta que o “chicles”, o objeto tão precioso, como a própria menina o diz sem saber no conto, é um objeto que apenas representa a garantia do elixir do longo prazer, mas não o é.


Até aqui, vimos o porquê da transferência se manifestar a serviço da resistência, mas ela poderá manter-se assim, caso o analista caia na armadilha de se servir dela como um adepto da psicanálise, nas mesmas condições ressaltadas acima: de poupar não só a pessoa do paciente, mas a sua própria. Isto significa dizer que o analista pode se aventurar a ocupar este lugar sedutor de parceria, daquele que porta o objeto que completa o que falta de saber ao paciente. Neste sentido é que Lacan (1958) dizia que a resistência é sempre do analista. O analista resiste na medida em que, ao responder como outro semelhante, como aquele que compreende, ensina, impede que o Outro simbólico, o Inconsciente, tenha um lugar. Dar lugar ao Inconsciente é assumir que aqueles endereçamentos do analisante não são à pessoa do analista, mas diz de uma posição Inconsciente do próprio sujeito que se repete e se revela nas suas relações, sem que ele se dê conta disto. Quando o analista se situa simbolicamente no lugar do Outro, mas introduz a falta como resposta, o trabalho pode ser instituído do lado do sujeito que demanda ajuda. Há aí uma aposta do lado do analista para que a transferência possa ser um motor, mas não garantias, já que o próprio paciente também precisa topar continuar falando e elaborando, sem “poupar a sua pessoa”.


Fazer da transferência um motor do tratamento e não um meio de resistência, assim, requer que o analista tenha um outro saber que não corresponde exatamente àquele suposto pelo analisante. Este outro saber é justamente que o tal “objeto precioso” não pode ser encontrado em lugar nenhum. Como o analista pode saber disto? Certamente, não o é por uma via apenas teórica, pois se assim o fosse, bastaria que também explicássemos aos pacientes da impossibilidade de se ter um objeto que lhe complete. Neste sentido, que a análise do analista pode ser uma via para que este experimente uma modificação na sua relação com a castração, para que saiba, não apenas teoricamente, da impossibilidade da completude do saber. Esta pode ser uma via para que o analista não tente “poupar” a sua pessoa ou a do paciente, podendo inclusive perdê-lo. Dizer isto não significa que a análise de um analista, em si, é garantia para se dirigir um tratamento, mas adverte que o saber em psicanálise não produz efeitos nem se transmite por uma via pedagógica. Saber da castração e saber-fazer com ela, no entanto, inclusive para o analista, se faz por uma travessia de um luto, possível (embora não garantido) a partir de uma relação transferencial cujo destino é também fracassar.


Para Lacan, é no avesso da resistência, a partir da sua própria análise, que se pode produzir um operador clínico fundamental para manejar a transferência a favor do tratamento: desejo do analista. Esta noção refere-se à possibilidade de oferecer-se a partir de um lugar esvaziado para que o paciente possa colocar na figura do analista todas as suas projeções. A ideia é que, o analista tope fazer-se semblante, entrar no jogo amoroso, mas advertido de que não há objeto. Assim, a cada vez que o paciente, na transferência, convocar o analista à parceria, a um bom encontro, ao invés da consistência esperada, o analista não introduz nenhum ideal, nenhuma substância identificatória. É por se encontrar com uma resposta enigmática, sustentada pelo desejo do analista, que o analisante pode ter a sua fala exposta a efeitos e se dar conta dos abismos entre o que se busca e o que se encontra no objeto que nunca é em si o seu contrário ou um complemento. Saber disto também pode levar a possibilidade de saídas não adivinhadas.


No conto que aqui tomamos como metáfora, a menina segue nos contanto sobre o seu encontro com o seu objeto “chicles”, no qual, a cada vez, a cada repetição, no ato de mastigar, algo de um desencontro se presentificava – “Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade, eu não estava gostando do gosto (...). Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar”. É justamente na experiência de repetição em que nossos pacientes buscam, obedientemente, um complemento, aparentemente, à revelia da resposta do analista que indica sempre um fracasso, uma impossibilidade, um desencontro deste movimento, que pode se abrir um convite para uma uma saída pelo desejo. A menina vai nos indicando os impasses deste caminho, por um bom tempo, da falta do objeto à ilusória alegria temporária por encontra-lo, a qual logo dá lugar a angústia de não poder perde-lo. A travessia, no entanto, dá condições para a própria menina autorizar-se na escolha aliviada de perder o tal objeto precioso - “Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia. – Olha só o que me aconteceu! (...) aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim”.


Esta é a nossa aposta ao dirigir um tratamento, que os nossos pacientes, pelos descaminhos da transferência, possam esvaziar esta demanda e esta suposição de que há em algum lugar este objeto último, precioso. Sustentamos e manejamos os enganos da transferência, assim, para dar condições ao próprio paciente de abrir mão desta relação, enquanto um meio de resistir à impossibilidade de um saber todo sobre o seu ser. É no seu fracasso, então, que a transferência se faz causa de desejo (em vários tempos de uma análise, não só ao seu “fim”), na medida em que um paciente pode seguir, com a “graça” das contingências e algum alívio, como a menina do conto, do lugar de desejante, sabendo fazer com os novos encontros com objetos não definitivos, a despeito do não-saber aí desvelado.


Isabela Ledo



Sugestões bibliográficas:


Freud, S. (1996). A dinâmica da transferência. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 12). Rio de Janeiro: Imago. (Originalmente publicado em 1912).


Lacan, J. (1992.) O seminário. Livro 8. A transferência, 1960-1961. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor.


Lacan, J. (1988) O seminário. Livro 11. Os quatro conceitos da psicanálise, 1964. Rio de Janeiro. Jorge Zahar editor.

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