• Christopher Rodrigues Anunciação

Pode haver a clínica da criança em Psicanálise? O sujeito, o infantil e a história


A pergunta contida no título desse texto não deixa de ser uma provocação a reflexão sobre a psicanálise com crianças na perspectiva lacaniana: há uma psicanálise de crianças, que carregue intrinsecamente necessidades específicas que não estão colocadas na clínica de adultos? Na tentativa de responder essa questão, comentarei três pontos que considero fundamentais para pensar o lugar da criança na psicanálise lacaniana: o que é a criança e o infantil; o que é a criança para psicanálise e, finalmente, em que pé estamos na clínica psicanalítica lacaniana.


O questionamento sobre a existência de uma clínica psicanalítica de crianças nos coloca uma questão ampla, sobre a necessidade de uma clínica específica para diferentes grupos ou segmentos populacionais. Defender uma “clínica da criança” numa perspectiva lacaniana, seria dizer que existe um sujeito-criança, sujeito-adulto, entre outros sujeitos que poderiam haver na escuta psicanalítica. Ao mesmo tempo, novas questões aparecem: se não houver o sujeito-criança, podemos pensar o diagnóstico estrutural na clínica com crianças tal qual com adultos? Como ficam conceitos chave como fantasia, angústia, pulsão – tão caros a clínica psicanalítica?


Antes de passar a isso, precisamos dizer de que sujeito tratamos quando apontamos para essa impossibilidade.


Na clínica psicanalítica lacaniana, o que está em mirada na escuta, é o sujeito do inconsciente, descrito por Lacan diversas vezes como aquilo que aparece entre um significante e outro. Longe de tratar do extenso tema do sujeito (o que exigiria outro texto), cabe dizer que a característica fundamental do sujeito em Lacan é de um sujeito evanescente. Na elaboração sobre o inconsciente no Seminário – Livro 11 (os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Lacan irá falar em afânise do sujeito, como um fading, um desaparecimento do sujeito do inconsciente.


Dito de outro modo, o sujeito do inconsciente não é algo que possa ser apreendido a partir de uma qualidade: criança, adulto, pobre, rico, etc. Jean-Jacques Tyszler (2014) nos lembra que para o sujeito do inconsciente não existe “a história” – para esse sujeito é indiferente a história, contudo, a história participa dialeticamente das formações do inconsciente. Contudo, quando falamos da escuta do sujeito do inconsciente na clínica psicanalítica, falamos de um aparecimento de algo entre um significante e outro. Um dos exemplos mais comuns desse aparecimento são os atos falhos: uma troca de palavras, quando se queria dizer uma coisa e se diz outra e então algo do inconsciente emerge, e rapidamente esvanece. Daí depreendemos um aparecimento desse sujeito lacaniano.


Pois bem. Se dissemos que o sujeito do inconsciente desconhece a história, porque nos importa retomar a história da infância, da criança, do infantil? Justamente porque a história cria discursos que servem nas formações do inconsciente, para, dentre outras coisas, suturar a falta estrutural através de uma resposta a questão que está posta ao sujeito, como “o que sou? ”. A construção social sobre o infantil recobre essa pergunta com a resposta: “eu sou uma criança” – seja lá o que isso significa. Nos interessa, portanto, como essa construção histórica nos leva como analistas, muitas vezes, a tamponar esse sujeito do inconsciente que buscamos ouvir através dessa resposta.


Retomemos aqui o que é a criança e o infantil. A rigor, a palavra que dá origem a infantil em nossa língua, o infans do latim, significa “aquele que ainda não fala”, ou seja, em sociedades antigas, o infantil era aquele que ainda não falava.


Ana Laura Prates Pacheco (2012) aponta em seu livro que a noção de infância como a conhecemos hoje, baseada fundamentalmente numa ideia de desenvolvimento humano, ou seja, de que a criança é um adulto em desenvolvimento é oriunda do pensamento iluminista, fundamentalmente a partir do século XVIII.


Isso significa que antes do século XVIII a noção de criança como a conhecemos hoje simplesmente não existia. Na idade média, pessoas com doze anos de idade eram consideradas adultas; ao mesmo tempo, não havia separação entre o universo adulto e o universo infantil – os indivíduos que falavam, ou seja, que não eram mais infans, podiam participar das atividades e dos assuntos da vida comum, inclusive do universo do trabalho.


O iluminismo, principalmente através de Jean Jacques-Rousseau, introduziu uma noção de infância em que, a criança é um ser em desenvolvimento, portanto, não tem condições de participar de todas as atividades do mundo, que nesse momento passa a ser considerado “adulto” e de que a criança é um ser “puro” e que somente a vida adulta é que traria a “perda da inocência” através do conhecimento sobre o trabalho, o sexo, as relações, etc. Essa concepção marca uma separação entre o mundo adulto e o mundo infantil, colocando no segundo as noções de inocência e pureza que permanecerão, pelo menos até Freud, sustentadas sobre a criança.


Na história da sexualidade, Michel Foucault (1976/2012) nos lembra também que essa mudança fará atentar para um novo aspecto do infantil: o cuidado sobre a sua sexualidade. A partir de 1770, as escolas europeias passam a experimentar as primeiras formas de educação sexual, que tinham por objetivo principal, afastar do universo infantil práticas sexuais como a masturbação ou mesmo o conhecimento sobre o sexo, considerado impuro. A vigilância sexual torna-se um recurso de conservação da infância e do infantil a partir desse momento.


Em 1905 Freud publica os três ensaios sobre a sexualidade. Nesse texto o autor retoma a existência da sexualidade infantil e a sua participação na etiologia das neuroses, principalmente a histeria, na qual se dedicava ao estudo na época. O que é interessante sobre os três ensaios é justamente que esse texto produz um rompimento entre uma noção de infância pura e imaculada, apresentando uma dimensão psíquica na infância que passa pelo registro do corpo, fundamentalmente nas zonas erógenas e que será constitutivo do sujeito, participando inclusive de seu adoecimento.


Cabe nos deter sobre o percurso freudiano em relação a infância, uma vez que ele produz diferenças metodológicas no interior da psicanálise no tratamento de crianças. Freud apresenta diferentes registros pulsionais que acompanham o desenvolvimento infantil, passando pelo oral, anal e genital ou fálico. Grosso modo, o encontro com o prazer se dá através desses registros e acompanham o sujeito durante toda a sua busca futura pelo prazer, após a fase de latência.


A partir disso, temos duas interpretações principais na psicanálise com crianças: uma concepção desenvolvimentista de Freud, localizando o oral, anal e fálico como estágios do desenvolvimento, corroborando a ideia da criança como um adulto em desenvolvimento e por outro, a leitura disso como registros pulsionais que ligam-se a busca pelo prazer e evitação do desprazer – mecanismo que irá acompanhar o sujeito em toda a sua vida, não exclusivamente na infância, e participa das formações do inconsciente e da posição que irá ocupar em sua relação com a castração.


Na primeira concepção, representada principalmente por Melanie Klein e Anna Freud, o tratamento com crianças exige uma psicanálise própria a esses sujeitos que miram principalmente, a construção de relações objetais satisfatórias, consideradas fundantes de um psiquismo que está organizado libidinalmente. O que importa demarcar aqui é que, essas autoras, bem como seus sucessores, esforçam-se para construir uma clínica psicanalítica da criança ou da infância, considerando que adultos e crianças não possuem equivalência dado seu período diverso no desenvolvimento.


Não é objeto desse texto criticar ou contrapor elementos dessa concepção clínica, mas buscar responder como, na psicanálise lacaniana, pensamos o manejo com crianças.


Conforme dito, a noção de infância e de criança é tributária de uma construção histórica. Nem sempre as crianças foram crianças – o que implica para nós considerar que o infantil não se trata de idiossincrasias biológicas ou comportamentais, mas históricas, que terminam por constituir o seu discurso.


Não se trata de colocar uma concepção em detrimento da outra, uma vez que, a noção de infância é fundamental atualmente para pensar questões sobre o direito, direitos humanos, garantias legais, entre outros. Importa para nós as implicações disso na psicanálise e como podemos encará-las na clínica com criança.


Ana Laura Prates Pacheco, em seu livro Fantasia de infância e o infantil na fantasia retoma a infância como uma construção histórica e discursiva para apontar como ela pode, numa concepção lacaniana, sustentar um tipo específico de clínica. Na esteira de outros lacanianos, como o casal Lefort (Robert e Rosine Lefort), a autora sustenta que a criança na psicanálise lacaniana é um “analisante integral”.


Mas o que isso significa no manejo clínico com crianças nessa perspectiva?


No pequeno texto “Nota sobre a criança”, de 1969, Lacan fará um giro sobre a posição da criança na família em relação a Freud. Enquanto Freud centraliza a criança como o falo da mãe, ou seja, em uma posição de sua majestade o bebê, Lacan acrescenta que a criança pode passar a ser, além de falo, o “objeto da fantasia materna”, ou ainda, ocupar o lugar de fazer o sintoma familiar, carregando aquilo que chama de verdade da transmissão familiar que se encarna na criança.


Adiante, Lacan irá nos dizer que, no tratamento com crianças, muitas vezes os pais levam ao tratamento o seu próprio sintoma, que é feito por ela em suas diferentes manifestações de sofrimento psíquico.


Isso é importante para nós, pois quando recebemos uma criança em análise, sabemos que, tal outros indivíduos, ela está referida a um discurso de um grande Outro a qual se identifica e se posiciona a partir daí. Se Lacan apontou que a criança ocupa lugar de objeto na fantasia materna, o seu sintoma revela ao analista que posição objetificada é essa que ela pode ocupar e auxiliá-la a se desvencilhar dessa posição.


Contudo, essa não é uma exclusividade da clínica com crianças. Qualquer sujeito que se apresenta para análise, traz em seu bojo suas identificações que se constituíram desde o momento que veio ao mundo e que participa no jeito de se posicionar e até mesmo, na forma como padece. Conforme nos lembra Lacan no Seminário 7, nossa tragédia familiar, ou seja, nosso mito familiar, se antecipa a nós, a nosso próprio nascimento. Quando nascemos, ocupamos um lugar de significante em uma frase que começa antes de nós. Como em toda clínica, disso que tratamos na clínica com crianças.


Como dissemos anteriormente, o sujeito do inconsciente desconhece a história. Assim sendo, a criança na clínica lacaniana trata de um lugar e não de um estágio do desenvolvimento ou de uma predicação do sujeito. Inclusive, podemos dizer a partir daí, que mesmo uma pessoa adulta pode ocupar um lugar identificatório semelhante ao da criança.


Isso quer dizer, portanto, que não há, na psicanálise lacaniana uma clínica da criança. As táticas[1] utilizadas no manejo desses atendimentos como brincadeiras, jogos, ou mesmo em modelos fora do consultório como no acompanhamento terapêutico com crianças, tem o mesmo objetivo de escuta do sujeito do inconsciente como na clínica com adultos. Escutamos também das crianças atos falhos, chistes, brincadeiras, tropeços da palavra que irão nos situar na condução do tratamento a partir da transferência que se estabelece com o psicanalista.


Com isso, os conceitos fundamentais da psicanálise, bem como o diagnóstico diferencial está presente na clínica com crianças. Buscamos identificar a estrutura, bem como seu tipo clínico e podemos situar o delírio ou erotomania numa psicose, ou a fantasia ou identificação em uma neurose.


Assim sendo, há psicanálise de crianças? Do ponto de vista da tática [1] do analista pode haver, quando escolhemos as intervenções que cabem aquela relação estabelecida. Na visada clínica, não pode haver psicanálise de crianças, uma vez que não temos o sujeito-criança, mas sim, o sujeito do inconsciente, um indivíduo que se apresenta e que, com seus próprios recursos está posicionado em relação a seu desejo, sua história familiar e a transmissão que o constitui.



Por Christopher Rodrigues Anunciação


[1] Tática no sentido apresentado por Lacan no texto A direção do tratamento e os princípios do seu poder, como sendo os recursos interpretativos que o analista lança mão para proceder a análise. Nesse sentido, Lacan nos dirá o que o analista é livre em sua tática, desde que esteja considerando a transferência, na escolha de suas intervenções – número de intervenções, uso do divã ou não, e nesse caso, o uso de jogos e brincadeiras. Na experiência clínica com crianças, já tive o caso, por exemplo, de crianças que não aderiam a brincadeiras ou jogos e usava as sessões para “ter uma conversa”, como elas nomeavam.



Referências


LACAN, J. (1959-1960/2008). O seminário livro 7 - A Ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1964/2008). Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais em psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

PACHECO, A. L. (2012). Da fantasia de infância ao infantil na fantasia: a direção do tratamento na psicanálise com crianças. São Paulo: Annablume.

TYSZLER, J. J. (2014). O fantasma na clínica psicanalítica. Recife: Ed. da Association Lacanienne Internationale.

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