• Gabriel Bartolomeu

O método psicanalítico e a atenção flutuante


Quais os elementos mínimos para que possamos criar condições para que uma experiência analítica surja? Esta questão nos levou a retomar em Freud dois aspectos fundamentais de suas elaborações: o método psicanalítico e a atenção flutuante. Assim, nosso objetivo aqui é realizar um breve comentário desses aspectos, visto que se destacam como sendo os dois elementos essenciais para a sustentação do trabalho do psicanalista.


O MÉTODO PSICANALÍTICO


O método psicanalítico foi proposto por Freud em seu artigo “O método psicanalítico freudiano” como superação dos métodos anteriores – o catártico e o hipnótico –, sendo a tarefa deste método “tornar o inconsciente acessível ao consciente”, o que ocorreria “através da superação das resistências” (FREUD, 2017/1904 [1905], p.56). No texto em questão, Freud irá propor um “procedimento que possibilite nos levar das ocorrências ao recalcado, das deformações ao deformado [...]”, tornando “[...] acessível à consciência, e sem hipnose, o que era inconsciente na vida anímica” (FREUD, 2017, 2017/1904 [1905], p. 55). Tal procedimento é nomeado por ele como “arte da interpretação”, o que claramente aponta para o que virá a ser chamado de associação livre:


“[...] Freud desenvolveu uma arte da interpretação, que tem o mérito de, a partir dos minérios das ocorrências involuntárias, representar o teor de metal dos pensamentos recalcados. Os objetos desse trabalho de interpretação não são apenas ocorrências do doente, mas também os seus sonhos, que permitem o acesso mais direto ao conhecimento do inconsciente, bem como seus atos involuntários e não planejados (atos sintomáticos) e equívocos em suas realizações [Leistungen] na vida cotidiana (equivocar-se ao falar [Versprechen], ao agir [Vergreifen] e assemelhados). [...] Segundo as suas indicações, trata-se de uma série de regras obtidas empiricamente, mostrando como, a partir de ocorrências, pode-se construir o material inconsciente, bem como instruções acerca de como entender quando as ocorrências do paciente falham, além de experiências sobre as resistências típicas mais importantes que aparecem no decorrer de um tratamento deste tipo” (FREUD, 2017/1904 [1905], p. 55, grifo do autor).


Neste texto, Freud informa que a mudança de método não implica uma alteração no objetivo do tratamento psicanalítico, que se mantém orientado pelo acesso ao conteúdo inconsciente no discurso manifesto do paciente. Assim, podemos concluir que o método psicanalítico tem como objeto o inconsciente, ainda que a apreensão deste objeto se dê através do material qualificado como consciente. Mesmo ao que se refere a superação das resistências do eu, ela só é visada na medida que sua superação permite o acesso ao inconsciente. É a partir deste método, cujo objeto é o inconsciente e objetivo é o seu acesso que podemos pensar o que Freud nomeia como regras técnicas.


As técnicas em psicanálise se sustentam, então, a partir do método forjado por Freud, , pois se caracterizam como intervenções que visam possibilitar tanto a manutenção do processo de análise (continuação da associação livre, manejo transferencial) quanto o acesso ao inconsciente (intervenções: pontuações, questionamentos, silêncios, tempo de sessão, valor e modo do pagamento, frequência das sessões). Em suma: as técnicas estão subordinadas ao método psicanalítico, não podendo ser compreendidas isoladamente.


A ATENÇÃO FLUTUANTE


A atenção flutuante é uma técnica e coaduna com o método psicanalítico na medida em que do lado do analista se espera uma disponibilidade psíquica para que a escuta acompanhe as associações do analisante naquilo que Freud chamou de “ocorrências”, ou seja, naquelas “[...] ocorrências involuntárias, geralmente sentidas como pensamentos que atrapalham e que, por isso, sob condições normais seriam afastados, pois costumavam atravessar o contexto de uma apresentação [Darstellung] intencionada” (FREUD, 2017/ 1904 [1905], p. 53). Para Freud, a “arte da interpretação” (ou associação livre) é o método que possibilita o paciente (e o analista) se apoderar dessas ocorrências. Além das ocorrências, recorre-se aos sonhos, atos involuntários e não planejados (atos sintomáticos), equívocos (de fala, de ação e outros) em suas realizações na vida cotidiana.


Neste sentido, a atenção flutuante é a ação de recusa de meios de apoiar o analista no registro de um conteúdo específico, caracterizado justamente por não se memorizar nenhum material em detrimento de outro. Isto porque, segundo Freud, se “afiamos a atenção intencionalmente até um determinado ponto, começamos a selecionar em meio ao material apresentado; fixamos uma parte de maneira bastante acurada, eliminando outra em seu lugar e, nessa seleção, fiamos as nossas expectativas ou as nossas inclinações”. O que o autor veemente não recomenda, já que neste caminho estaríamos apenas nos guiando apenas pelas nossas próprias expectativas, correndo “o risco de nunca encontrarmos algo diferente daquilo que já sabemos” (FREUD, 2017/1912, p. 94).


Ainda, através da técnica da atenção flutuante o psicanalista se distancia de uma tentativa de compreensão do discurso do paciente pela via puramente intelectual. Para Freud, não é esta a via para a compreensão da neurose, mas, novamente, pelo “seguimento paciente da regra psicanalítica, que estipula o desligamento da crítica ao inconsciente e seus derivados” (FREUD, 2017/1912, p. 104).


É por isso também que Freud (2017/1912, p. 96) não recomenda que se realize registros durante as sessões, pois isso nos levaria a ocupar “[...] uma parte de nossa própria atividade intelectual, que deveria ser mais bem aplicada na interpretação do que ouvimos”. Ele diz: “Anoto exemplos à noite depois de terminado o trabalho, a partir do que me lembro”. Ainda, apesar de Freud apontar que a pesquisa e o tratamento psicanalíticos coincidam, não indica que aborde um caso cientificamente durante o processo, apenas após o término dos atendimentos, pois, ele entende que:


“O sucesso é prejudicado nesses casos, que de antemão são definidos pelo aproveitamento científico e tratados de acordo com essas necessidades; por outro lado, os casos que mais têm sucesso são aqueles em que procedemos quase sem intenção, nos surpreendendo com cada mudança de rumo e com que nos defrontamos sempre desarmados e sem preconcepções” (FREUD, 2017/1912, p. 97).


Vemos aqui que se do lado do paciente a exigência é a de que discorra sobre seus pensamentos o mais livremente possível, do lado do analista impõe a necessidade de que sua escuta seja também “livre” de uma busca a priori de determinado material.


CONSIDERAÇÃO FINAIS


O método psicanalítico é o que o psicanalista deve colocar em movimento para que uma análise possa ser levada adiante, pois, engendra, do lado do paciente, uma outra experiência com sua fala, diferentemente da cotidiana. Se nesta temos o imperativo de sermos o mais claro possível em nossas comunicações, evitando contradições e malentendidos, na análise o que se espera é que o paciente chegue ao ponto de se deixar tocar por aquilo que evitamos fora do setting analítico. O método psicanalítico, então, abre a vias para que o inconsciente possa se revelar ao paciente e também ao analista.


No mesmo sentido caminha a atenção flutuante, pois, exige do analista sustentar a posição de não saber de antemão o sentido da fala do paciente. É um esforço de não levar compreensões pré-construídas para as sessões e tomá-las como um filtro através do qual irá escutar o que o paciente fala. O resultado disso é que o analista se torna mais disponível para o reconhecimento das manifestações do inconsciente.

Ambos, método psicanalítico e atenção flutuante, assim, conjugam um aporte metodológico e técnico de base para o trabalho do psicanalista. Ou seja, são os causadores iniciais, e necessários, para que uma experiência analítica possa acontecer.


Gabriel Bartolomeu



Referências


FREUD, S. O método psicanalítico freudiano (1904 [1905]). In:______. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. p. 51-61.


FREUD, S. Recomendações ao médico para o tratamento psicanalítico (1912). In:______. Fundamentos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2017. p. 93-106.

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