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Aprendimentos em tempos de pandemia


De repente, uma espécie de suspensão torna-se a marca do nosso cotidiano por conta de uma “pandemia”, significante que tenta “condensar”, paradoxalmente, a “diluição” rápida e fortuita das nossas rotinas, dos nossos projetos, das nossas formas de enlace e de tantas vidas.


Como analistas, se não temos mais as mesmas condições para seguir, isto não nos impede de apostar, mais do que nunca, na orientação que nos sustenta desde os primeiros passos: a possibilidade de invenção, de fazer “aprendimentos”, sem obturar o intratável desta experiência que também nos desafia a suportar.

“Aprendimentos” (e não “aprendizagem”) é um neologismo, sugerido pelo poeta Manoel de Barros, que nomeia este projeto, iniciado por 5 analistas, mas sustentado por tantos outros nas nossas trocas cotidianas. Achamos, assim, oportuno retomar o que nos orienta de saída: fazer do não-saber uma via!


De que modo? Como fazer deste desamparo, causa para seguir? Qual “tratamento” dar a este acontecimento? Qual a “direção” para fazer frente ao Real? Direção e tratamento se rearticulam aqui e nos remete, dentre outros, ao texto lacaniano de 1958: “A Direção do Tratamento e os Princípios do seu Poder”. A política como aquilo que organiza o poder no laço social é subvertida neste escrito e, ali onde se tenta fazer Um, se estabelecer uma saída homogênea, para todos, excluindo o Real em jogo; a psicanálise insiste. Insiste ao sustentar o Inconsciente como a política, a fim de fazer deste impossível de ser dominado, uma via. Esta política organiza o poder da “palavra”, uma palavra que aponta como cada um, dividido pela realidade, precisou inventar saídas, desde cedo, para suportar o vazio.


É neste sentido que, se não sabemos muito bem por onde seguir, isto não quer dizer que não possamos traçar novos percursos orientados por tal política. Sabemos que a invenção é de cada um, mas que não se dá sem alguns outros, e renovamos aqui a nossa aposta nos laços de trabalho para suportarmos esta travessia!


Confi(n)emos – mais ainda – nos laços e na po-ética para recolhermos outros efeitos de afeto deste Real que nos assola. E se confiamos, também, que o artista não só precede o analista, como lhe abre caminhos, nos “contagiemos” uma vez mais com Manoel de Barros nos seus “aprendimentos”, na sua inspiradora e inesgotável didática da invenção:


“Desaprender 8 horas por dia, ensina os princípios (...) Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma. Repetir, repetir – até ficar diferente...”.



Equipe Aprendimentos Clínicos

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