• Gabriel Bartolomeu

A censura do analista


“Naturalmente, eu sou como todo mundo, incorro nos mesmos erros que vocês, faço tudo o que lhes digo que não se deve fazer”.

Jacques Lacan, Seminário 3

“É tão extravagante em relação a realidade dizer eu sou psicanalista quanto eu sou rei”.

Jacques Lacan, Seminário 1




De acordo com o dicionário Michaelis, censura é “ação ou efeito de censurar”, sendo que censurar é “exercer censura ideológica, moral, religiosa etc. sobre algo”; “proibir a apresentação, divulgação ou publicação de”; “apontar falha ou defeito em (algo ou alguém); criticar”; “julgar(-se) de maneira desfavorável; desaprovar(-se)”; “advertir severamente” [1].


Qual analista nunca se censurou sobre sua prática, questionando-se se o que está realizando é psicanálise? Quem nunca, durante a sessão, com uma intervenção pronta na cabeça, deixou de colocá-la em palavras em função da mesma censura: essa intervenção não parece psicanalítica.


Como observo durante as supervisões, e em minha experiência pessoal, essa censura parece ser um acontecimento comum, especialmente no início da prática clínica. Questionar-se sobre as suas intervenções, e sua pertinência, é algo esperado de qualquer profissional da área, mas deixar de intervir ou se recriminar após a intervenção por não achar que a intervenção faz jus a psicanálise é outra história...


De onde será que vem e como se sustenta essa censura?


Logo de saída podemos dizer que a resposta ‘tem a ver com questões subjetivas do analista’ não é suficiente para darmos um encaminhamento a problemática. É claro que tudo que se passa do lado do analista tem relação com suas questões subjetivas, mas nos satisfazermos com essa resposta seria apenas individualizar o problema.


Parece-me que há algo anterior à subjetividade do analista e que se refere à formação em psicanálise lacaniana, entendendo essa formação como um campo que inclui a análise pessoal, a supervisão, as produções teóricas e as instituições psicanalíticas (formais ou informais).


Podemos dizer que as instituições psicanalíticas servem como mediadoras do contato do analista com as produções teóricas existentes; a supervisão como mediadora do analista com sua prática clínica; e a análise pessoal como mediadora do analista com suas questões subjetivas. Ou seja, há sempre um mediador em jogo, um terceiro, que aqui chamarei de social.


Considerando este social, entendo que a censura do analista é resultado não só das questões subjetivas do clínico, mas também da sua formação em psicanálise constituída pela mediação de terceiros – analista pessoal, supervisor clínico e analista ensinante.


Essa afirmação significa que possamos colocar a “culpa” da censura que o analista vivencia em relação a sua prática na conta desse terceiro, como se fosse uma determinação social?


Dando uma resposta mais ou menos condizente com o que circula entre os lacanianos, eu diria: não, há uma resposta do sujeito diante disso que vem do social. Porém, isso não me convence, já que acredito que há toda uma espécie de cultura lacaniana – seja dentro ou fora das escolas de psicanálise –, e ela está diretamente ligada à maneira como a teoria é lida e transmitida, de transformar a teorização lacaniana ou certas suposições de como a clínica cotidiana deve acontecer em ideais a serem seguidos.


Esses ideais se tornam um horizonte modelar os quais o analista em formação deve atingir para poder se olhar no espelho e dizer: sou psicanalista lacaniano, esta intervenção que realizei posso considerá-la psicanalítica.


Se isso é um efeito inesperado, colateral ou um efeito esperado pelos terceiros que mediam a formação do analista não consigo dizer, porém, acredito que é necessário que esses efeitos (que surgem na forma de ideais) possam ser reconhecidos pelos mediadores da formação em psicanálise e problematizados – seja na análise, na supervisão ou no ensino.


Como disse, existe uma diferença entre se questionar sobre a sua prática e censurar a sua prática. Na primeira situação, trata-se de se colocar numa posição de aprendiz sabedor da importância de sustentar uma reflexão constante sobre o seu trabalho, sem reduzi-lo a algo já sabido e completamente apropriado. Já na segunda, o analista está na posição de incapaz, posto que não consegue decidir se o que faz é psicanálise ou não, e, ao recorrer aos referências teóricos e clínicos forjados na formação, o que encontra são modelos ideais de como ser analista e intervir.


A posição de aprendiz aponta para o analista um trabalho a ser constantemente construído, traz a ideia de desconstrução e construção, de movimento; enquanto a posição de incapaz aponta para o analista um trabalho que deveria ser feito de uma maneira que ele não faz, traz a ideia de algo pronto a ser reproduzido, levando o analista a mudez subjetiva, paralisando a sua ação.




Gabriel Bartolomeu



[1] http://michaelis.uol.com.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=censurar

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