• Christopher Rodrigues Anunciação

O tempo do lobo: sonhar como elaboração do tempo em pandemia


Texto adaptado a partir da apresentação realizada em 25 de abril de 2020 de forma remota para o evento “Tempo e angústia durante a pandemia” promovido pela Liga Acadêmica de Psicanálise e Psicopatologia da Universidade Nove de Julho


A pandemia de coronavírus nos assolou sem tempo algum para reflexão. Fomos sumariamente convocados a ficar em nossas casas e nos proteger de diversas maneiras de um vírus – um elemento que se espalha no ar e mata milhares de pessoas ao redor do mundo. A pandemia nos obrigou a reinventar o tempo e o mundo sem “tempo” para nada.

Nesse texto, pretendo conduzir uma reflexão sobre quais caminhos podemos aludir a partir do fazer do psicanalista e como seu saber pode comparecer frente a pandemia. Resgato o tempo do inconsciente em Freud – marcado por um constante devir – como aquilo que podemos escutar nos sonhos de nossos analisantes e abrir portas de uma elaboração possível desse tempo de pandemia. Localizo também, a partir do tempo lógico em Lacan, qual seria nosso instante lógico nesse momento e como a escuta analítica pode comparecer como algo que precipita novas saídas em direção a novos tempos.


O saber em psicanálise só se constrói numa relação entre um inconsciente e outro. Desde a descoberta/invenção freudiana do inconsciente, o seu método se desenrola como a tentativa de analisar o inconsciente, desvendando-o e, através desse desvelamento, ensejar um processo de cura dos sintomas neuróticos. Nesse momento, estamos sob o julgo de outro saber, que é o saber científico – positivado e objetivado, volta a baila como nosso melhor barco para navegar as águas obscuras de uma pandemia. Nessa esteira, acho curioso as diversas análises que saltam de tantos especialistas, enquanto na verdade, parece que não chega para nós, psicanalistas, o tempo de concluir, ou seja, o tempo conforme o sofisma utilizado por Lacan, que seja capaz de produzir um saber de si e do outro. Outrossim, parece que estamos ainda presos no instante de ver, os quais permanecemos prisioneiros de um saber do outro que deve determinar quanto mais tempo passaremos em nossa clausura. É desse instante de ver da psicanálise que pretendo tratar aqui.


Sonhar com o tempo que virá parece ser o saber que podemos extrair desse momento de pandemia. É através do sonho que podemos produzir inconscientemente tempos e espaços que não obedecem a lógica ordinária do tempo. O sonho não segue os relógios, dias e horas. Nos sonhos, podemos viver vidas inteiras e retornar ao início por diversas vezes. O tempo do sonho revela a dimensão inconsciente do tempo, delimitada por Freud em sua leitura da nachträglich, aquele a posteriori da neurose que faz com que relembrar seja imediatamente elaborar sobre aquilo que se lembra. O tempo do sonho, que é esse tempo do inconsciente é onde as coisas acontecem e não acontecem ao mesmo tempo, são e não são ao mesmo tempo. É através de uma lógica paradoxal que aquilo da dimensão inconsciente se revela no sonho. Ao analista cabe a tarefa de analisar as idas e vindas do tempo e recolher aquilo que sobra do sujeito. Nesse sentido, sonhar já é elaborar algo sobre o vivido, sobre a nossa relação com o mundo e com o outro, submetendo a experiência ao tempo diacrônico do inconsciente.


No texto de Lacan, O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada (1945) o autor recorre ao sofisma dos três prisioneiros para tratar, entre outras coisas, da produção de um saber sobre si e sobre o outro em uma análise. O sofisma trata de três prisioneiros que recebem a possibilidade de sair da prisão através da resolução lógica de um enigma: o diretor da prisão lhes apresenta cinco discos, sendo três brancos e dois pretos, os quais serão colados as suas costas sem que possam ver qual o disco lhe foi atribuído. Aquele que primeiro deduzir logicamente qual a cor do seu disco, deve dar um passo para fora da prisão. Lacan apresenta em seguida aquilo que seria a solução perfeita do sofisma, com a saída dos três prisioneiros ao mesmo tempo.


Não irei me ater aos detalhes do sofisma e dessa saída lógica, que podem ser verificadas muito mais bem descritas no texto lacaniano, mas quero extrair os três tempos da saída perfeita do sofisma descritas por Lacan: instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir.


O tempo de ver é aquele tempo em que cada um dos prisioneiros deve examinar os discos dos colegas e extrair o material para seu estudo lógico que o faça concluir qual a cor do seu disco. O tempo de ver leva ao tempo de compreender, que é onde a observação sofre o exame lógico daquele que olha para os discos dos colegas. Esse tempo está marcado pela hesitação e angústia, pois a saída perfeita só se dará quando os três prisioneiros chegarem juntos ao tempo de concluir, que é darem o passo para fora da prisão. Lacan nos dirá que o tempo de ver está marcado pela presença “ontológica da angústia” (p. 207), onde a existência de si e do outro é inconsistente – não se sabe quem é o outro (a cor do disco) e daí não se pode saber que é o si mesmo. Ante a esse enigma, a angústia é o afeto que domina o tempo.


Ora, muitos de vocês devem pensar o quanto parecemos agora todos prisioneiros de um enigma sem fim: quando terminará a pandemia de coronavírus. Até quando estaremos enclausurados em nossas casas ou ainda, quando seremos contaminados e talvez morreremos. São tempos duros em que o não saber nada de si e do outro dilui a alteridade e nos toma de uma inconsistência – em outras palavras, ficamos sob o domínio da angústia. Angustiados, parece cada vez mais difícil sonhar com um mundo novo.


Parece que estamos presos no instante de ver uma pandemia, onde ainda não é possível dar um passo adiante, vez que o outro da ciência não trocou olhares conosco a ponto de revelar a cor de nosso disco, o que pode ser a nossa sorologia, a descoberta de um remédio ou de uma vacina. Enquanto esse outro não descobre a cor de seu disco, permanecemos nesse lugar. Não sinto que como psicanalistas, somos capazes de oferecer algo completamente novo ou um saber que nos tire desse lugar agora, mas somos aqueles que podemos oferecer um mapa incerto dessa travessia.


O mapa incerto dessa travessia é o inconsciente, esse lugar onde tempo e espaço se diluem. Os psicanalistas são aqueles que devem estar prontos para se manter prontos para escutar o tempo de compreender de cada um, subvertendo a tentativa de empregar um sentido claro e objetivo, apontando para os descaminhos do inconsciente, que é a morada do tempo do sujeito. Escutar os sonhos de nossos analisantes nesse momento, é relançar possibilidades sobre as incertezas que advém. Ao mesmo tempo, é possibilitar que cada um possa inventar um caminho.


Teremos aqueles que parecem mais angustiados, outros menos. Para muitos, a angústia abrirá o caminho para seus sintomas, velhos e novos, companheiros indesejados da jornada neurótica. No caso Dora, por exemplo, Freud nos mostra através da análise de um sonho da paciente como a angústia é a antessala da sua formação de sintomas. Será também através dos sonhos de Dora que Freud nos mostra o início e o fim de sua análise interrompida, onde o tempo de compreender pareceu demasiado tarde.


Há também aqueles que se recusam a sonhar. A angústia parece tamanha que lhes sequestram o sono, o que já é um fenômeno recorrente na clínica, de pessoas que nunca conseguem desacelerar, nem mesmo para dormir. O investimento libidinal no mundo que nos mantém “conectados” parece impedir a imersão em outros tempos. Nesse sentido, a pandemia parece manter alguns acordados, em estado de alerta e de urgência. Para esses o sonho se faz urgente e necessário. Já escutei de muitos amigos quando começam suas análises que passam a sonhar mais e lembrar de seus sonhos. Acredito que precisamos perguntar sobre os sonhos para aqueles que não dormem para que possamos falar ao seu inconsciente, colocar em jogo essa “outra cena” que insiste em se esconder ante a presença assustadora do outro da pandemia. Sonhar para eles pode ser o que torna possível desenhar o mapa. A interpretação do psicanalista, nesse sentido, é o que revela o caminho.


O cineasta Michael Haneke em sua obra pós apocalíptica, O tempo do lobo, sonha com um mundo em que a alteridade desaparece e que o outro está reduzido a ameaça da própria sobrevivência dos personagens. O filme começa com um assassinato em uma cabana onde uma família de classe média tenta se esconder com os filhos do apocalipse que se avizinha. No filme, não sabemos o que causou o apocalipse, muito menos o que aconteceu com os recursos. Ficamos presos junto com os personagens em um instante de ver que não se encerra. Os sonhos parecem estar suprimidos e é justamente a realidade que vai perdendo o sentido cada vez mais. O final apoteótico do filme se resume a uma criança que passa ao ato, lançando-se a uma fogueira, nua.


O sonho do diretor sobre um mundo que se acaba suprime o sonho dos personagens de sua obra. Ninguém sonha no fim do mundo. Na cena final, em que o garoto tenta se lançar ao fogo, alguém o resgata, acalentando-o no colo, quase como se coloca alguém para dormir. Aí poderia ser o início de nosso filme: embora presos no tempo de ver, em um mundo de incertezas, não podemos dizer qual a vida que se avizinha, mas podemos resgatar os que não dormem e convidá-los a viver um tempo em que só sabemos do futuro depois dele – a posteriori, sob a certeza de que desde já, nós psicanalistas estamos aqui para escutar.



Christopher Rodrigues Anunciação

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