• Isabela Ledo

Um analista entre: Leis... Lies, Lives, Love... “e Die”?

“Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras (...) a escovar palavras...”

(Manoel de Barros, 1916-2014/2018)

Ao situar o termo urgência, no primeiro seminário lacaniano, associado à “palavra” que ultrapassa o sujeito acorrentado a um discurso “perturbado, inumano, alienante”; interrogo-me sobre a atualidade desta espécie de confinamento do sujeito nestes tempos de pandemia e pandemônio. Desacorrentar as palavras, re-visar, reavivar, cuidar do estado da palavra é o desafio e a urgência analítica situada, então, por este texto.

É sabido que ao entrarmos na linguagem, nos apalavramos, criamos pactos e regulações simbólicas que possibilitam a troca, as custas de uma perda radical. Renunciamos a algo do “ser” na própria constituição subjetiva. Entrar no campo da significação, tentar dizer do que se é, é uma experiência que demanda sempre uma representação, uma substituição. Habitar a linguagem, assim, é consentir com a condição itinerante própria ao sujeito dividido pelos significantes... entre um e o outro, há lacuna, corte, disjunção. Esta divisão subjetiva não pode ser reparada por uma palavra, um objeto. Cada um terá um trabalho psíquico, de invenção de respostas sempre parciais para lidar com a realidade atravessada pelo mal-estar. Trabalho este que desvela um impossível de tudo saber. A verdade, segundo Lacan (1969/1970), é este lugar que encarna o impossível de se produzir um saber todo, um significante, uma palavra última que possa dizer do “ser”... algo sempre resta, escapa.

Sabemos, assim, que a palavra permite um acesso sempre ficcional à realidade - “A linguagem funciona inteiramente na ambiguidade, e a maior parte do tempo vocês não sabem absolutamente nada do que estão dizendo. Na nossa interlocução mais corrente, a linguagem tem um valor puramente fictício...” (Lacan, 1955, p. 139). No entanto, há um modo de tratar, de se valer desta palavra que preserva a ambiguidade, a duplicidade, a falha, permitindo novos efeitos de sentido, e há um outro modo que a engessa, a endurece, dá uma fixidez alienante. É este segundo uso da palavra que torna-se preocupante. Especialmente, quando se chega ao limite disto: se ela serviria para se construir o pacto civilizatório ainda que, de modo claudicante, sempre aberta à revisão, o que acontece quando ela é usada para quebrar este pacto?

Acompanhamos os efeitos de horror desta quebra, deste “decepamento da palavra” (Brum, 2019). A palavra confinada a uma “autoverdade”: a verdade tratada como algo íntimo, fechado em si mesmo, a despeito dos fatos, do coletivo. Como protagonizado pelo presidente do Brasil, ao nomear um adoecimento letal para milhares de pessoas como “gripezinha” e dizer sobre o seu avanço: “ E daí? Lamento. Quer que eu faça o que? Eu sou Messias, mas não faço milagre”.

Ironicamente, pela duplicidade própria ao significante que algo da verdade passa pela “mentira” nestas falas. Não basta, no entanto, que a verdade passe, há de escutá-la no seu escoamento ou negá-la, fazendo-a consistir. Há, justamente, quem tente fazer da verdade morada, posse. “Donos da verdade”, uma expressão corriqueira, que nega a inospitalidade permanente deste lugar. Em nome de uma crença, nega-se que o que a verdade faz saber é da falha escancarada no lugar do Outro; e ficciona-se ali uma garantia. Confia-se que o saber será dado por um MITO, um messias que, de saída, já anuncia não fazer milagres, mas nem por isso dissuade os crentes fervorosos. Crentes que frente a disjunção entre saber e verdade, sustentam um alto e uníssono: “E daí?”

É nesta era sem “leis”, reguladas por “lies” que se condenam “lives”... “Lives” que se perdem... Lives que se produzem virtualmente: para interrogar as “lies” ou para endossa-las? “Lives” para tomar a palavra: tamponando o Real ou para elaborar, no laço, o esfacelamento de sentido que vivenciamos? Leis, Lies, Lives, Love: deslizamentos necessários num tempo que parece nos fixar, nos deixar atônitos, paralisados. Como reintroduzir pelo som o “sentido” da função da palavra revelada desde Freud: “ a palavra revela que a lei da conversa é a interrupção e que o discurso corrente se choca sempre contra o desconhecimento... que é a mola” (Lacan, 1954, p. 308). A-molar a escuta e o uso das palavras pela via da equivocação, esta é a urgência, mais uma vez, que estes tempos de absolutismos nos coloca. Fazer ecoar a voz de Tom Zé: “eu tô te explicando pra te confundir...” e fazer passar para “tô te confundindo pra te esclarecer”. Um analista deve estar em dia com a advertência da função poética da língua, e fazer uso da confusão, do equívoco como meio de fazer uma outra verdade falar – “cada palavra é vertiginosa. Esta é a sua clareza” (Paz, 2014, p.43).

Historicamente, a palavra sempre foi uma “arma” que pode matar, aprisionar, mas também capaz de ludibriar a censura, proteger liberdades. Para resistir a este cenário de autoverdade, é preciso, urgentemente, se valer do estranho, dos caprichos das palavras, da insubordinação palavreira... recolher os restos, tão abominados pela lógica messiânica, para tirar a mordaça. No menor dos vocábulos, “E daí?”... fazer aparecer o tamanho do absurdo, agigantar o que se busca negar, interrogando de outro modo: “E die?”. Reavivar “d’ ai em ai”... cada um dos gritos dos torturados, mortos, enlutados na história deste país. E daí? Seguir mais um pouco, refrescando a memória, pois “d’aí” solta-se também um outro “ai”... atos institucionais... 1, 2, 3, 4, 5... e quantos mais? Marca de um tempo torturante, inumano que não passou...

É esta a urgência analítica sustentada por este texto: des-amor-daçar as palavras... sair do amortecimento e tecer o amor num tear polifônico, descontínuo, que comporta o espaço, o singular.

Analistas que vem, cada vez mais, ocupando lugar de fala nas lives, nos espaços virtuais... como cuidar, então, desta relação com a novidade da palavra descoberta por Freud? Como estar atento ao estatuto da palavra ali? Nesta era apressada e de um empuxo à significação plena, a respostas rápidas, seria ingênuo pensar que um “psicanalista” poderia “escapar” de se interrogar, ainda mais, sobre a transmissão. Consentir com esta fuga, parece um meio de camuflar o “tormento” da advertência lacaniana: “a psicanálise é intransmissível. É bem chato. É bem chato que cada psicanalista seja forçado – pois é preciso que ele seja forçado – a reinventar a psicanálise” (Lacan, 1978). Como não cair na armadilha de fazer do papagueamento de palavras já gastas, fixas, engavetadas um plácido refúgio para esta tormenta? Num tempo atordoante, refugiar-se à sustentação de uma significação última, unificadora, como abordado, leva ao pior. Frente a um saber pretensamente “ab-so-luto”, “só um luto” do sentido que cada um poderá, singularmente, operar pode remobilizar o “sentido” da transmissão analítica. Acompanho Nominé (2011) nesta argumentação que coloca este trabalho de luto do lado do analista, advertindo os riscos de se tomar a palavra na lógica universitária: como meio para abrigar-se do turbilhão do sentido, tentando se assegurar contra o escape, o escoamento do sentido, a fuga infinita que lhe concerne.

Analistas, nas lives, assim, podem se valer do “artista”, deste escoamento do sentido para recuperar este fértil “estado da palavra”... e “escapar” da “palavra do estado” que estatiza, burocratiza, confina, “zumbi-fica”, mortifica o desejo. Afinal, Analista é também uma “palavra” que nada garante, mas adverte... Não imuniza, pelo contrário, desprotege... Não estabiliza, mas vacila, balança... Não ritualiza, mas ritmiza... Não dá caminho, mas faz rede-moinho... Não é bússola, mas um comando que nos escapa...

Escape que, por efeito, mobiliza um saber em termos de verdade... ao recolocar na palavra o ritmo, a vertigem dançante, o redemoinho estonteante... que permite deslocar-se entre leis, lies, lives, love... sem se fixar. Neste es-paço, se transmite a urgente itinerância da palavra “verdadeira” em sua potência poética abissal. Neste (não) sentido, Octávio Paz nos “dá um baile”, no seu ritmo mutante impassível...e nos inquieta, num entre passos, fazendo um passe pelo impossível, ao saber bailar, improvisar no salão inóspito da verdade:

“Entre o que vejo e o que digo, entre o que digo e o que calo, entre o que calo e o que sonho, entre o que sonho e o que esqueço, a poesia. Desliza entre o sim e o não: diz o que calo, cala o que digo, sonha o que esqueço. Não é um dizer: é um fazer. É um fazer que é um dizer. A poesia se diz e se ouve: é real. E, apenas digo é real, se dissipa. Será assim mais real?”

(Paz, 1976-1988)


Por Isabela Ledo


REFERÊNCIAS


BARROS, M. (1916-2014). Memórias Inventadas. A infância. São Paulo, Editora Planeta do Brasil: 2018.

BRUM, E. (2019). Doente de Brasil. In: El país. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/01/opinion/1564661044_448590.html.


LACAN, J. (1953 – 54) O seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1979.

_________. (1954 –55) O seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

_________. (1957 - 58) O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999.

_________. (1969-70) O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

_________. (1978). IX Congresso da Escola Freudiana de Paris. Publicado em Lettres de l’École, 1979, n. 25, vol. II, pg 219-220.

NOMINÉ, B. (2011). Luto do sentido? In: Wunsch 11. Boletim Internacional da EPFCL. Disponível em: https://www.champlacanien.net/public/docu/4/wunsch11.pdf. Acesso em: 12 de novembro de 2020.

PAZ, O. O arco e a lira. São Paulo: Cosac Naify, 2014.

PAZ, O. (1976-1988). Dizer-fazer. In: Arbol adentro – Poemas 1976-1988. Tradução de Eduardo Jardim. Disponível em: https://bazardotempo.com.br/dizer-fazer-um-poema-de-octavio-paz/. Acesso em 29 de setembro de 2020.


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